Um em cada cinco doentes de clínica geral apresenta sintomas depressivos
16.10.2009 - 09:39 Por Lusa
Um em cada cinco doentes de clínica geral apresenta sintomas depressivos “clinicamente significativos”, revelou o psiquiatra Manuel Jara, a propósito do Dia Europeu da Depressão, que se assinala sábado. Segundo o médico, a depressão é subdiagnosticada e subtratada em todo o mundo, especialmente nos cuidados primários.
“Muitas vezes o doente não se queixa bem, esconde os sintomas depressivos e tem manifestações físicas. Outras vezes, a queixa principal é somática, dores, mal-estar, fadiga” e isso subestima a doença. Por outro lado, além de haver poucos médicos de família, “falta hoje tempo na Medicina para conversar com o doente.
Apesar disso, Manuel Jara considera que os doentes são devidamente tratados nos centros de saúde, uma vez que os clínicos gerais têm formação na área de saúde mental e estão sensibilizados para esta problemática.
A depressão é quase duas vezes mais frequente nas mulheres do que nos homens e perto de dois terços dos doentes têm pelo menos uma recorrência ao longo da vida.
“O risco de recorrência aumenta à medida que o número de episódios também aumenta e diminui com o aumento do tempo em que o doente se encontra recuperado”, explica o médico.
Manuel Jara lembra que “a depressão é a doença psiquiátrica mais frequente" e há estudos epidemiológicos que sugerem que a incidência da doença está a crescer.
Além disso, recorda Jara, é "a maior causa de suicídio”. “Dois terços das pessoas que se suicidam têm sentimentos depressivos ou depressões”, sustenta, adiantando que “as mulheres suicidam-se menos que os homens - apesar de terem mais depressões -, mas fazem mais tentativas”.
A vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), Luísa Figueira, acrescenta que “a maior parte das depressões surge no início da idade adulta e afecta a vida pessoal e profissional”.
“É importante que a família seja informada sobre a doença e saiba que o risco de suicídio aumenta no primeiro mês de tratamento”, alerta a psiquiatra, explicando que a pessoa não tem capacidade para sair da depressão sozinha e necessita de cuidados médicos.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que cerca de 121 milhões de pessoas em todo o mundo podem estar presentemente a sofrer de alguma forma de depressão.
Estudos epidemiológicos mostram prevalências pontuais (proporção de pessoas afectadas num determinado momento) de três a quatro por cento e prevalências anuais de quatro a 10 por cento.
Demonstram ainda prevalências de vida (proporção de pessoas afectadas desde o nascimento até ao momento da entrevista) entre 10 e 17 por cento. Estes dados variam consoante a população estudada ou os instrumentos utilizados na avaliação clínica.
“Em Portugal, lamentavelmente não há dados epidemiológicos nesta área, mas presumem-se valores de prevalência dentro do padrão europeu e espanhol”, refere a SPPSM.
Em Espanha, um estudo realizado na Cantábria revelou uma prevalência ponderada da depressão de 6,2 por cento, com 4,5 por em homens e 7,8 por cento em mulheres.
No âmbito do Dia Europeu da Depressão, Manuel Jara quis deixar uma mensagem: “Temos de considerar que as depressões são doenças, têm múltiplas causas, que podem ser estudadas e tratadas”.
Consumo de psicofármacos aumentou 36,6 por cento em cinco anos
O consumo de psicofármacos subiu 36,6 por cento em cinco anos e só em 2008 foram vendidos quase 28 milhões de embalagens, que custaram mais de 372 milhões de euros, segundo dados do Infarmed.
Em 2008, os portugueses consumiram psicofármacos num total de 372.323.619 euros, o que representa um crescimento de 7,6 por cento em relação a 2007.
Dados do Alto Comissariado da Saúde indicam que nesse ano, em média, cada mil habitantes consumiram diariamente 152,1 medicamentos ansiolíticos, hipnóticos, sedativos e antidepressivos, enquanto em 2002 esse consumo era de 115,6 medicamentos, bem longe do melhor valor da União Europeia em 2006 (42,3).
Para a alta comissária da Saúde, é necessário saber por que se consomem tantos psicofármacos em Portugal.
“A dose diária dos portugueses é superior à média europeia. Ou somos muito mais deprimidos e precisamos mesmo de os tomar ou o consumo é excessivo”, comentou Maria do Céu Machado à Lusa.
Para o presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria Biológica, Luís Câmara Pestana, “existe um aumento real da utilização de antidepressivos em Portugal, na Europa e em todo o mundo”, mas “não existe qualquer evidência científica que este aumento seja devido a má prática clínica”.
O responsável adianta que o crescimento do consumo não está relacionado com o número de doentes deprimidos, lembrando que a utilização de antidepressivos é uma prática comum em outras especialidades médicas para além da psiquiatria.
Por outro lado, explica, os ansiolíticos e hipnóticos, que estão incluídos na categoria de psicofármacos, “não têm qualquer actividade antidepressiva e não devem ser confundidos com os antidepressivos”.
Dados do Infarmed referem que o consumo de antidepressivos cresceu de 5.062.735 embalagens (num total de 131 milhões de euros) em 2003 para 6.399.466 embalagens vendidas em 2008, que custaram 172,5 milhões de euros.
O psiquiatra Manuel Jara explica, por seu turno, que estes medicamentos são importantes para a maior parte das situações depressivas, embora possa haver às vezes um uso errado, sobretudo nos doentes bipolares.
“Os antidepressivos são utilizados na depressão, mas também nas perturbações ansiosas que têm uma prevalência alta”, avança o médico para explicar este aumento.
A alta comissária da Saúde lamentou que “ainda não haja um trabalho credível que indique as razões por que se consome tantos antidepressivos” e anunciou que a coordenação nacional da saúde mental está a realizar um estudo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) que vai revelar quem está medicado e as razões.
Segundo a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), a depressão ocupa um lugar cimeiro do ponto de vista do custo económico na Europa.
Em estudos de cuidados primários concluiu-se que a depressão determinava um absentismo 11 vezes superior ao das doenças não depressivas.
Segundo um relatório europeu, a Depressão Major é a perturbação cerebral de maior custo, tendo um impacto económico de cerca de 100 milhões de euros em cada ano na Europa.
Para este valor contribuem, essencialmente, os custos indirectos com absentismo, reformas precoces, mortalidade precoce e diminuição da produtividade.
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