Movimentos pró-vida dizem que aborto aumentou por causa da crise
15.06.2009 - 16:35 Por Lusa
Movimentos pró-vida e pró-escolha concordam que a crise económica contribuiu para o aumento da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), mas salientam que a legalização do aborto também teve influência nestes números.
Responsáveis clínicos de vários hospitais contactados pela Agência Lusa dizem que o número de interrupções voluntárias da gravides aumentaram em Portugal desde o início do ano, sendo as dificuldades financeiras uma das explicações avançadas para justificar o fenómeno.
Joaquim Galvão, da Plataforma Cívica “Mais Vida, Mais Família”, admite que a falta de condições económicas e o desemprego são desfavoráveis à maternidade, mas sublinha que “a falta de valores” e a “irresponsabilidade” também contribuem para aumentar o número de IVG.
“Quem vai ao mar, avia-se em terra”, frisou este partidário do movimento anti-aborto, lembrando que “quem tem relações sexuais, arrisca-se a uma gravidez”.
“Há tantas formas de contracepção e acesso ao planeamento familiar que não se justifica. O aborto como forma de contracepção revolta-me muito”, criticou Joaquim Galvão, apontando o dedo ao “facilitismo” da legislação que entrou em vigor em meados de 2007.
Maria José Magalhães, da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), destacou igualmente a facilidade no acesso ao aborto, mas pelo lado positivo, já que se traduz numa redução dos abortos clandestinos.
“Necessariamente haverá um progressivo acesso dos casais à nova legislação. É habitual nos países que legalizaram o aborto assistirmos, nos primeiros anos, a um aumento do número de IVG que corresponde a uma diminuição do aborto clandestino”.
Ainda assim, acrescentou a activista pró-escolha, “as estimativas da prática de abortos clandestinos, antes da lei eram muito superiores aos números registados em 2007 e 2008. A própria lei é um mecanismo que ajuda a consciencializar as pessoas e prevenir estas práticas”.
Quanto aos efeitos da crise, “seria necessário estudar melhor a questão para se estabelecer uma relação causal, “mas é um factor provável”.
“Os casais pensam mais no que é necessário para criar uma criança e um futuro incerto pode interferir nessas decisões”, vincou Maria José Magalhães.
A presidente da UMAR está convicta de que estas decisões não são fruto da irresponsabilidade: “Às vezes, as pessoas enfrentam dilemas na sua vida e têm de tomar decisões de acordo com os recursos que têm disponíveis e com as suas condições”.
Pedro Líbano Monteiro, da Associação Juntos pela Vida, tem uma opinião oposta, atribuindo o aumento exponencial do número de abortos à “liberalização do mesmo” e à “regulamentação que excluiu a dissuasão da sua prática (pela exclusão de objectores de consciência na consulta de aconselhamento)”.
“Nem o consentimento é informado nem são fornecidas às grávidas informações de alternativas à prática do aborto”, argumentou numa resposta escrita.
Além disso, “a confirmar-se que o aborto é realizado em consequência de dificuldades económicas e sociais, então estamos perante um Estado que se demite das suas funções de apoio social à pobreza, o que se reveste de uma gravidade acrescida”.
Pedro Líbano Monteiro deixou ainda um recado ao ministério da Saúde, manifestando a sua estranheza pelo facto de este, ao contrário do seu congénere espanhol, “não disponibilizar publicamente informação estatística actualizada sobre a prática do aborto e dos motivos invocados pelas grávidas para a prática do mesmo”.
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