Gripe A (H1N1): “Não é o fim do mundo apanhar isto. Já tive gripes bem piores”
12.07.2009 - 08:16 Por Catarina Gomes
Palavras-chave: “A pandemia, o alerta não sei o quê e a Organização Mundial de Saúde diz isto e aquilo.” Motivo para pânico? Não, especialmente se já se teve gripe A (H1N1). João não é médico de saúde pública encarregue pelo Governo de sossegar os ânimos mas deixa uma mensagem que talvez fosse parecida: “Se quiserem ter cuidado tenham, mas não é o fim do mundo apanhar isto. É uma gripe como outra qualquer. Já tive gripes bem piores.”
As histórias são muito semelhantes: pensaram que tinham uma gripe comum mas, como todos tinham viajado, havia dúvidas, foram buscá-los a casa, confirmou-se a infecção, estiveram em isolamento e, depois da “liberdade”, a vida continuou. O PÚBLICO falou com quatro portugueses que tiveram gripe A e, até agora, o seu desfecho é comum à quase totalidade dos 84 casos confirmados em Portugal – nos mais recentes está-se a vigiar a evolução clínica. Ou seja, reitera o Ministério da Saúde em comunicado: os casos de gripe A em Portugal estão a ter uma evolução clínica favorável e “as pessoas retomaram as suas vidas”.
Se João fosse susceptível de ser assustado nada teria sido pior do que “a chegada dos astronautas” a sua casa, em Aveiro. Depois de discar o número 808 24 24 24 (Linha de Saúde 24) com receios de ter sido infectado com a estirpe pandémica do vírus da gripe – tinha vindo de Valência (Espanha) e tinha tosse, dor de cabeça e alguma febre – não demorou muito a que chegasse à sua porta uma ambulância do INEM com dois homens vestidos com luvas, óculos, cobertos da cabeça aos pés com fatos brancos especiais, com os pés protegidos para o levar a ele, que nesse dia até estava com menos febre do que no dia anterior. Mas lá foi, até um dos hospitais de referência para a gripe A, os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC).
Aí chegado, foi colocado num quarto de isolamento onde não podia receber visitas e onde apenas podiam entrar médicos e enfermeiros protegidos. “Foram duas noites e dois dias. Foi aborrecido de morte. Até achei que a gripe não me matava, mas o tédio.”
Os médicos que tem na família já tinham desdramatizado o suficiente a gripe A para não se chocar com a confirmação laboratorial do diagnóstico: “A coisa que mais me incomodou era que tinha que lá ficar [no hospital] mais tempo.”
O que lhe valeu foi a Ana, que estava no quarto ao lado com sintomas ainda “mais brandos” do que os seus e a quem ligava pelo telefone interno para trocar impressões e “brincar com a situação”. Foi o João quem contaminou a Ana? Ou foi a Ana que infectou o João? É indiferente, o vírus A (H1N1) viajou com os dois amigos no carro durante as nove horas que demorou o percurso de Valência, em Espanha, a Aveiro. João, de 26 anos, está lá a tirar um mestrado “em Audiovisual” e Ana, engenheira do ambiente com a mesma idade, está a trabalhar na cidade espanhola. Voltavam os dois para umas férias portuguesas que tiveram que ser adiadas.
Mas o isolamento acabou esta semana, e se João já foi à praia, Ana ainda não teve tal sorte. É que aos dias de quarto de isolamento somaram-se os que tiveram que ficar em casa a tomar o fármaco Oseltamivir (cujo nome comercial é Tamiflu), evitando contactos com os habitantes da casa. Ana almoçava no seu quarto com medo de contaminar os pais, que também tiveram que tomar o fármaco como forma de prevenção. “Hoje é o meu último dia em clausura, amanhã já estou livre”, e já sabe qual é a primeira coisa que vai fazer quando sair: “Ir à praia dar um mergulho.”
Num “quarto de hotel” Paulo, gestor de 39 anos, acha que teve tratamento VIP, talvez porque foi um dos primeiros: o número quatro da lista. Na unidade de doenças infecto-contagiosas do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, os quartos de isolamento “têm óptimas condições” e ele sentiu-se ali como “num quarto de hotel”: com casa de banho privativa, televisão, rádio e Internet. Quando ainda não estava confirmado o seu caso ainda mandou um e-mail para que avisassem o grupo dos 32 portugueses que viajaram consigo para os Estados Unidos, numa semana internacional integrada num MBA que está a tirar.
Ficou apenas um dia no Curry Cabral e depois voltou a casa. Paulo duvida de que os cuidados esmerados que recebeu sejam possíveis para todos os doentes quando a gripe A estiver disseminada, como parece ser inevitável. Um exemplo: cada vez que entravam no seu quarto, enfermeiros e médicos, com máscaras e fatos de protecção, saíam, despiam-se e ainda tinham que tomar banho.
Abram alas para o André
O potencial contagioso de André, de 25 anos, tornou-se bastante claro quando abriram alas para ele: levaram 15 minutos para evacuar todo um corredor dos HUC para o deixar passar e – ainda no hospital de Leiria, o primeiro sítio onde foi depois de sentir febre e ter tosse – havia uma porta especial onde o receberam profissionais de saúde vestidos de fatos, dessa feita verdes. Foi da unidade leiriense que ligaram para a Linha de Saúde 24, que o instruiu a ficar em casa e medir a febre de quatro em quatro
horas, depois de uma viagem de férias a Palma de Maiorca. Tomou paracetamol e quando a febre não baixou teve o mesmo destino de Ana e João: um quarto de isolamento e uns dias fechado em casa.
Além dos colegas de trabalho, a quem teve que avisar, poucos mais souberam da sua sorte. A vítima “da gripe suína” é piada no trabalho, mas isso é porque lá já estão informados.
André vê medo à sua volta, o que faz com que seja discreto e conte a pouca gente, pelo menos enquanto as pessoas não entenderem que “isto não é uma coisa do outro mundo”.
Regressados à normalidade, depois de retomarem o convívio e de ter acabado o alarme à sua volta, dizem que ficaram com uma história para contar, mas a vida continua e as viagens também.
“Sem medos e sem máscara”, Ana não vai deixar de ir de férias para a Turquia e André voltava de bom grado a Palma de Maiorca se lhe oferecessem “uma viagem grátis”, até porque agora quase se pode dizer que, se já a apanhou, já está “vacinado”.
A eles a gripe A já “não assusta nada”, o receio que tinham antes vinha do natural medo “do desconhecido”, diz João, e do alarde feito pela comunicação social. A crítica é comum: “Não é nada como dizem nos jornais. Não é nada do outro mundo. Os jornais é que alarmam as pessoas”, palavras de André. “Toda a gente vai tê-la. Não há volta a dar, mas uma pessoa saudável não morre disto”, avisa João.
Os nomes usados no texto são fictícios
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