Alzheimer: “As pessoas passam ao lado, pensam que são sem-abrigo”
21.09.2009 - 09:01 Por Catarina Gomes
Se calhar até já passou ao lado de um doente de Alzheimer perdido mas não ligou. Se calhar até se cruzou com o pai de Maria no dia em que ele saiu de casa e andou desaparecido “uma tarde inteira”. “As pessoas passam ao lado, pensam que são sem-abrigo”, alerta a filha de um doente de Alzheimer de 67 anos, diagnosticado há sete.
“Há sinais de que algo não está bem”, diz. “O meu pai estava limpo e arranjado e fugiu com uma manta às costas”, uma reminiscência do tempo em que trabalhava na agricultura e acartava com sacas.
A doença de Alzheimer é um tipo de demência que origina uma deterioração progressiva e irreversível de diversas funções cognitivas, como a memória, a atenção, a concentração, a linguagem e o pensamento. Caracteriza- se por morte neuronal em determinadas partes do cérebro. Hoje é Dia Mundial da Doença de Alzheimer.
Esse dia acabou bem, conta Maria: “A polícia encontrou-o.” O pai não soube explicar onde tinha andado, só perceberam que tinha caído porque tinha “a canela esfolada”. Foi “o susto” que levou Maria a inscrever-se no Rumo Seguro, um programa de reencaminhamento de doentes de Alzheimer que usam uma pulseira ou um colar com um número de telefone (808101212) e um código do cuidador do doente.
Um dos sintomas da doença é a desorientação espácio-temporal – a deambulação verifi ca-se em 60 por cento dos doentes. “Eles gostam de andar, dá-me a sensação de que se sentem livres”, tenta explicar Maria.
Casos de sucesso
O seu pai voltou a fugir mas, desta vez, demorou menos de uma hora a reencontrá-lo. Foi um dos oito casos de sucesso desde que o programa nasceu, no ano passado, em cerca de 200 cuidadores inscritos, informa Mariana Nunes de Almeida, responsável pelo programa. As entidades que mais reencaminham doentes são os bombeiros e a polícia, com quem o programa tem acordos.
“Ainda não aconteceu ser um cidadão a dar o alarme” mas a responsável alerta: “Se virmos uma pessoa que nos parece desorientada, no mínimo pode-se abordá-la. Perguntar se está tudo bem. Se precisa de ajuda. E encaminhá-la para uma esquadra ou bombeiros.” “São 90 mil doentes de Alzheimer em Portugal, são muitos.”
A maior parte dos cuidadores são filhos de doentes e a maioria vive em espaços urbanos, refere Mariana Nunes de Almeida. Ou seja, os doentes vagueiam sobretudo em cidades.
A viver no Porto, Maria de Lurdes Monteiro, administrativa de 35 anos, perdeu a conta às vezes em que a mãe lhes fugiu, a ela e ao pai. Começou por desaparecer durante a noite, quando estavam os dois a dormir. Uma vez apanhou um autocarro e foi até ao fi m do percurso. Foi o motorista quem acabou por perceber que algo não estava bem e atendeu o telemóvel que a mãe ignorou toda a noite.
Depois de terem mudado a fechadura da porta de casa e escondido a chave, minoraram o problema mas não o resolveram. “Foge duas vezes por semana, no mínimo. Basta distrairmo-nos um bocadinho”, por exemplo, o instante que leva a parar para tirar dinheiro num multibanco.
Como a mãe perdia tudo tiveram que lhe tirar os documentos, ficou sem nada que a identificasse, depois teve que ser o dinheiro. Se se perder não tem nada. Foi por isso um alívio quando a mãe, que tem 60 anos e era doméstica, finalmente aceitou usar o colar do programa Rumo Seguro. Uma primeira vez arrancou-o, mas agora usa-o como adorno.
Maior segurança
Ainda não teve que accionar o programa, mas sente-se “mais segura”. “Tivemos sorte, costumam ser fugas de uma hora”, diz Maria de Lurdes. A mãe, que dantes “pintava as paredes de casa, pregava pregos, mudava lâmpadas” e agora “não fala, não escreve, não se veste sozinha”, tende a fazer um percurso que lhe era familiar, “do tempo em que ia ter com as amigas à Baixa do Porto”. Primeiro sobe a Rua Pinto Bessa, desce a do Bonfim, desemboca na Fernandes Tomás. “O meu maior receio é se um dia nos troca as voltas.”
O mundo familiar dos doentes vai mirrando, constata José Manuel, bancário de 39 anos. A mãe, de 81 anos, diagnosticada há seis meses, tinha passe social e andava por Lisboa inteira. Hoje percebe que “só conhece a zona à volta da casa, vai ao supermercado, ao café”. A medicação que está a tomar atrasa a evolução da doença mas não impede a sua progressão.
A mãe ainda percebeu quando lhe disseram a razão por que usava a pulseira no pulso, mas nunca lhe disseram que tem Alzheimer. “Mesmo que se dissesse ela não percebia, perdeu essas faculdades intelectuais.”
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