Igreja pede a Sócrates que controle laicismo de alguns membros do PS
30.03.2008 - 10:32 Por Natália Faria
O projecto do PS de fazer desaparecer o divórcio litigioso da lei portuguesa "é um grande erro que o país vai pagar caro no futuro", criticou o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Carlos Azevedo, para quem este projecto - que será debatido no plenário a 16 de Abril - é mais um sinal claro da postura de afrontamento que o actual Governo assumiu relativamente à Igreja Católica.
"Há forças dentro do Governo que têm uma postura de ataque à Igreja Católica e penso que falta, da parte do primeiro-ministro, uma vigilância coordenadora de actos e medidas avulsas que ferem e atingem quem anda há muito a servir a população", declarou o porta-voz da CEP, reclamando de José Sócrates uma "ética política" que não fique refém dos "interesses imediatos nem das influências de um ou outro ministério" e do PS.
A tensão entre o Governo e a Igreja Católica agudizou-se em torno de questões como o aborto, os atrasos na regulamentação da Concordata e a intenção declarada de pôr fim à assistência espiritual e religiosa nos hospitais. "São actos avulsos e isolados que, somados, ferem e atingem quem quer servir a população", insiste, dizendo que "o Estado tem a obrigação de reconhecer o papel social da Igreja e de o promover do mesmo modo que promove o desporto, ao apoiar a construção de estádios".
As medidas do desagrado
O porta-voz da CEP recorda a propósito o recuo do Governo na intenção de desmantelar a rede de assistência religiosa nos hospitais, acabando com a vinculação dos capelães e restringindo a assistência aos doentes que a pedissem por escrito. "A medida foi muito criticada e o Governo veio depois dizer que não era bem isso. Antes da queda do ministro [da Saúde] Correia de Campos, tínhamos chegado a um acordo, com cedências de ambas as partes. Compreendemos que a nova ministra precise de tempo para conhecer os dossiers, mas continuamos à espera que esse acordo avance", lembra.
Mas as críticas estendem-se também à ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. "Andámos um ano a fazer interpelações sobre questões relacionadas com a presença da Igreja nas escolas e a ministra não nos responde", acusa, reiterando a posição assumida pela Igreja relativamente à contestação dos professores. "As reformas são importantes, mas não se fazem por decreto. Tem que se dialogar com as pessoas e uma manifestação como a dos professores não pode ser ignorada".
Quanto aos atrasos na regulamentação da Concordata, assinada em 2004 entre o Governo e a Santa Sé, o porta-voz da CEP aproveita para cobrar a promessa de Sócrates. "Foi-nos prometido que, no primeiro semestre deste ano, se avançaria com esta questão. Esperamos que até Junho ou Julho tenhamos alguma proposta para analisar", avisa, para sublinhar: "Os padres já passaram a pagar impostos, a Igreja, nas suas actividades económicas também deixou de ter isenção fiscal, tudo isso já mudou. A Igreja Católica não quer ser privilegiada, mas também não admite ser prejudicada".
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