Fernanda Câncio continua a questionar expressão “namorada do primeiro-ministro”
13.11.2009 - 13:54 Por Romana Borja-Santos
Fernanda Câncio continua a questionar se “não atenta contra a reserva da intimidade quem identifica publicamente outra pessoa com base numa sua relação íntima, sem que esta a isso autorize”. A jornalista reagia assim, num comentário publicado no blogue Jugular e intitulado “comissão de quê?”, à decisão da Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas que considerou “improcedentes” os recursos onde contestava o facto de ter sido designada como “namorada do primeiro-ministro” por alguns meios de comunicação social.
No mesmo comentário, Câncio considera ainda “extraordinários” os termos utilizados no relatório e insiste que não percebe como é que se pode dizer que tal assunto é do conhecimento público. “Por que meios e com que legitimidade e rigor e deontologia jornalística é que terá chegado ao conhecimento público [esta matéria]”, questiona. Além disso, coloca em causa o “interesse jornalístico” desta informação: “Será o mesmo que o interesse de vender jornais/revistas/folhas de couve?”
Além disso, Fernanda Câncio desmente a ideia de que se possa dizer que é namorada de José Sócrates apenas com o argumento que tal ideia consta da biografia intitulada “O Menino de Ouro do PS”. E escreve: “Na dita biografia (que se apelida de autorizada para significar que foi como que escrita ou pelo menos toda aprovada pelo biografado, o que a comissão se exime de provar ou sequer de consubstanciar) o biografado 'assume' a tal dita relação. Por acaso é falso.”
E lamenta que “uma comissão composta essencialmente por jornalistas decida que basta para a qualificar como tal a existência de uma (não existente, de resto) assunção da outra parte da alegada relação”. “Se uma pessoa não só tiver opinião como for chamada a dá-la sobre um determinado assunto, deve sempre ter o cuidado de certificar que não é nem de perto nem de longe coincidente com a de alguém com quem tem ou julgam que tem uma relação íntima”, pergunta.
A concluir, a jornalista, para mostrar “como pode haver opiniões um bocadinho diferentes”, cita uma parte do parecer do conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas sobre o mesmo assunto e que classifica como “tecnicamente incorrecta e deontologicamente reprovável o enfoque e identificação da jornalista como sendo "namorada de" nos títulos e destaques das notícias, em análise, elaboradas pela SIC, Correio da Manhã e Expresso”.
A decisão da Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas foi tomada a 21 de Outubro, considerando que “a matéria em causa era do conhecimento público e de interesse jornalístico, dada a situação de conflito de interesses entretanto gerada”.
E acrescenta: “O conflito de interesses resulta de a autora do texto [Fernanda Câncio], à data dos factos e conforme é público e notório, ser namorada do primeiro-ministro – não se coibiu, todavia, de o defender, sem daquela relação ter dado conhecimento aos seus telespectadores”. Os factos reportam às opiniões que Câncio defendeu no programa “A Torto e a Direito”, transmitido na TVI24.
No relatório completo, que o semanário “Sol” cita, a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas diz que não se pode falar em “infracção disciplinar” tendo em conta que a relação de Sócrates e Câncio foi “assumida” na biografia autorizada do primeiro-ministro, intitulada “O Menino de Ouro do PS”. Além disso, o plenário entendeu que a queixosa “não podia ignorar a repercussão e as apreciações” que seriam feitas às suas opiniões “coincidentes com as manifestadas pelo chefe de Governo”.
O PÚBLICO está a tentar contactar Fernanda Câncio mas, até ao momento, não foi possível.
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