Vitória esmagadora do "sim" recebida com alívio numa Irlanda em crise
03.10.2009 - 17:53 Por Sofia Lorena, Dublin
O primeiro-ministro Brian Cowen deu crédito aos irlandeses por terem escolhido "permanecer no coração da Europa". Os opositores do Tratado disseram-lhe que vão cobrar as promessas
À segunda foi de vez e nem os defensores do "sim" antecipavam uma vantagem tão grande e um dia tão tranquilo: os irlandeses ratificaram em referendo o Tratado de Lisboa por 67,1 por cento dos votos, menos de 16 meses depois do primeiro voto e do chumbo, então por 53,4 por cento. Não houve uma grande festa, mas foi com imenso alívio que o impopular primeiro-ministro, Brian Cowen, se congratulou por "um bom dia para a Irlanda e um bom dia para a Europa".
Este foi o mais expressivo voto "sim" num referendo europeu na Irlanda desde o Tratado de Maastricht, em 1992. A participação, que chegou aos 58 por cento, foi a mais alta desde a consulta da adesão, em 1972.
Tão cedo a vantagem se tornou evidente - o "não" só venceu na província de Donegal, no extremo Noroeste, entre o Atlântico e a outra Irlanda - que o anúncio final dos resultados foi antecipado e alguns dos líderes da campanha do "sim" quase não tinham tempo de chegar ao St. Patrick"s Hall do Castelo de Dublin.
Lá dentro, anunciado o veredicto que já todos conheciam desde as 11h, duas horas depois de iniciada a contagem, houve palmas e sorrisos. Membros do Fianna Fail, de Cowen, agitaram cartazes coloridos. Vencidos e derrotados deram entrevistas ali ou no enorme pátio cercado pelas bandeiras de todos os Estados membros da União Europeia. Cá fora, coube aos jovens voluntários do Ireland for Europe pular e gritar "sim".
Barry Hiccky, 26 anos eT-shirt "pela Europa", tem muitos argumentos a favor do Tratado, mas o principal é que "temos problemas comuns que só podem ser resolvidos em conjunto". Como as alterações climáticas, o tráfico de droga e a recessão. Alguns são os que ele já enfrenta, advogado desempregado; outros são os problemas com que a geração da filha, de três anos e meio, "vai ter de viver".
O Fine Gael, o principal partido da oposição, estacionou por ali a sua carrinha, pintada com o rosto do líder, Enda Kenny, e com osslogans "sim à recuperação, sim à Europa". Os seus apoiantes largaram balões amarelos.
Quem não esteve no Castelo de Dublin foi Brian Cowen, que escolheu a sede do Governo para dar o "crédito final e absoluto desta vitória" aos irlandeses, que mostraram vontade de "permanecer no coração da Europa, onde o nosso futuro pertence". Também é uma vitória sua, a primeira desde que chegou à chefia do Governo, mas poucos lhe dão crédito por ela.
Enda Kenny preferiu sublinhar a responsabilidade e maturidade dos eleitores, que souberam separar "assuntos europeus e nacionais". Sem deixar de dizer que nunca como nestas semanas em campanha sentiu "tanto ressentimento, tanta raiva e frustração". Membros do seu partido passaram o dia a pedir que Cowen não confunda o resultado com apoio às suas políticas.
A melhor arma
Do lado do "não", o empresário Declan Ganley disse que esta foi uma "campanha desonesta", focada na promessa de empregos e de recuperação. "Vamos ver daqui a um ano se isso acontece." Entre os derrotados, todos defenderam que o "sim" só ganhou por causa da crise que assola a Irlanda.
"A melhor arma que o "sim" tinha era a economia e usou-a", resumiu Patricia McKenna, do People"s Movement. O líder do Sinn Fein, Gerry Adams, antecipou que "amanhã os problemas das pessoas vão continuar" e que o resultado "vai ser usado por um Governo muito mau" para justificar as suas políticas. Todos prometem ficar por perto e cobrar ao Executivo as promessas das últimas semanas.
O desemprego é hoje de 12,6 por cento e 400 mil irlandeses estão inscritos nos centros de emprego. Talvez por isso não seja fácil encontrar festejos longe do Castelo de Dublin. Jackie, cabeleireira de 42 anos, está à espera do autocarro para regressar a casa depois de uma volta de sábado à tarde pelo centro das ruas pedonais e das lojas. Ainda não conhecia os resultados, mas fica aliviada. "Votei "sim" por causa da situação em que estamos. Pensei que era mais seguro."
Não são só os políticos da oposição que vão cobrar "empregos" e "recuperação" a Cowen. Enquanto o primeiro-ministro andava em campanha pelo país, quase não houve um dia sem protestos em Dublin. Quarta-feira, as ruas foram ocupadas por funcionários dos serviços sociais, que já sofreram cortes e enfrentam novas reduções com os planos de diminuição de gastos que se anunciam. Quinta e sexta-feira, os taxistas bloquearam a O"Connell Street. Nas primeiras páginas dos jornais, o referendo fez menos manchetes do que a crise ou do que a polémica da indemnização de 1,1 milhões de euros paga ao ex-director da FAS, a agência nacional para a promoção do emprego.
Os próximos tempos não serão melhores. Enda Kenny avisou que com o regresso do Parlamento, encerrado por duas semanas por causa da campanha, "recomeça a política nacional". As principais centrais sindicais, que defenderam Lisboa, ameaçam com greves. E é já no próximo sábado que os Verdes, parceiros do Fianna Fail no Governo, se reúnem e podem chumbar um novo programa de governação e um plano de 54 mil milhões de euros para salvar os bancos irlandeses e ressuscitar o sistema financeiro.
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