"Uma solução de dois Estados no Chipre não é uma opção"
15.11.2009 - 13:41
Há 26 anos, no dia 15 de Novembro de 1983, Mehmet Ali Talat votou contra a proclamação da República Turca do Norte de Chipre (RTNC), de que hoje é um "Presidente com muito orgulho". Naquela época, o líder dos cipriotas turcos era Rauf Denktash, o arquitecto da independência, só reconhecida por Ancara e pela Organização da Conferência Islâmica.
Mas Talat, dirigente do Partido Republicano Turco, que participou na reunião de dia 14 que antecedeu a criação da RTNC, opôs-se. "Chorei quando cheguei a casa à noite, pela primeira vez na minha vida", disse Talat a um jornalista turco, autor de um livro agora publicado.
No seu palácio em Lefkosia/Nicósia, que antes da independência de Chipre em 1960 foi uma mansão da potência colonial britânica, o antigo engenheiro de 57 anos explica em entrevista ao PÚBLICO a sua decisão do passado e as negociações do presente.
Uma recente sondagem mostra que quase 80 por cento dos cipriotas turcos quer uma solução de dois Estados, e não a reunificação. Porque é que o pessimismo do seu povo contraria o seu optimismo de que o compromisso é possível?
Depois de os cipriotas gregos terem chumbado o referendo da ONU em 2004, que previa a reunificação, é normal que os cipriotas turcos, que votaram a favor, se sintam pessimistas. Eu olho para essas questões de uma forma mais vasta. Este é um problema da comunidade internacional, e os principais protagonistas são agora a favor de uma solução, incluindo a Turquia, a Grécia, a União Europeia e a ONU. A minha opinião tem de ser diferente da opinião pública. Será que a solução de dois Estados é uma opção? Será uma opção lógica ou racional? Eu digo que não é racional! A única opção é uma federação de dois Estados iguais.
(Talat dirá mais tarde, com o gravador desligado, que não há comparação entre Nicósia dividida e Berlim, que há 20 anos derrubou o seu muro. "Os alemães", adiantou, "eram um só povo, nós somos duas comunidades distintas. A reunificação servirá para pôr fim ao nosso isolamento. Dou-lhe um exemplo: muitos cipriotas turcos vão trabalhar no Sul, mas à noite regressam ao Norte porque ainda têm medo [dos cipriotas gregos].")
Esta é a última oportunidade para um acordo?
É a última oportunidade porque temos a coincidência de todos serem neste momento a favor de uma solução. As negociações decorrem numa atmosfera amigável, mas o ritmo é mais lento do que esperava. Os cipriotas gregos, sendo agora membros da UE, não querem partilhar o poder, e isso é um problema. É preciso maior envolvimento da ONU porque é necessária arbitragem. O problema de Chipre foi arrastado pelo Sul para a UE, e a UE tem direito de pedir ao Sul que resolva o problema.
Pode um acordo ser conseguido antes da cimeira europeia de Dezembro?
Não tenho a certeza. Também não tenho a certeza de que possamos encontrar uma solução num futuro próximo.
Há um prazo para chegar a um acordo?
Não fixámos nenhum prazo, mas há sinais, datas a considerar. Uma é a cimeira da UE, porque a Turquia vai ser reavaliada. É um momento crucial, não o fim da vida.
O que espera da cimeira?
Não espero nada contra a Turquia [obrigada pelo protocolo de Ancara a reconhecer Chipre sob pena de ver as negociações de adesão suspensas].
A Turquia disse com toda a franqueza que está disposta a levantar as restrições ao lado cipriota grego, abrindo os seus portos e aeroportos se simultaneamente a UE puser fim ao isolamento dos cipriotas turcos.
No seu vocabulário não há, portanto, lugar para a palavra fracasso.
O fracasso é sempre possível. Se isso acontecer, será a divisão permanente da ilha.
Acha que o novo Governo socialista de George Papandreou em Atenas, com boas relações com a Turquia, pode influenciar a decisão dos cipriotas gregos?
Essa é a nossa esperança.
E o que espera da União Europeia?
Vários países da UE reconhecem agora que foi um grande erro admitir os cipriotas gregos na União em 2004 [depois de terem chumbado o plano de reunificação de Kofi Annan]. Há uma atitude mais positiva mas o erro já está feito, não pode ser emendado.
O senhor é amigo pessoal de Dimitris Christofias, o Presidente da República de Chipre. Mas nota que os cipriotas gregos se mostram agora mais intransigentes. Porquê?
Christofias não negoceia sozinho. É claro que ele tem de promover os interesses dos cipriotas gregos. Mas os partidos da oposição, e alguns da sua coligação do Governo, não lhe facilitam a vida. Ele é muito vulnerável às críticas. Não se pode mostrar flexível.
Quantos encontros já teve com ele?
Mais de 50!
(Sobre o que conseguiram até agora, Talat já havia explicado num "briefing" que há acordo para um presidente e um vice-presidente eleitos e rotativos, mas divergências sobre a composição do governo "porque os cipriotas gregos não aceitam um sistema equitativo".)
Mesmo sem prazo, em 2010 haverá presidenciais na RTNC. Qual será o impacto para o seu futuro político se falhar nas negociações?
É claro que o impacto não será positivo. Pode não haver acordo até 2010. Mas fracasso não é opção no curto prazo.
Há 26 anos, o senhor opôs-se à proclamação da RTNC. Continua a achar que foi um erro?
É verdade que me opus a esta proclamação, porque temia que a reacção da comunidade internacional seria muito negativa e prejudicial aos interesses dos cipriotas turcos. Ainda hoje acho que, naquela altura, tinha razão. É claro que a RTNC se tornou numa realidade histórica e eu sou o Presidente da República que tenta dar o melhor para servir os seus cidadãos.
O PÚBLICO viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da RTNC
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