Não há quase nada em Gaza – sobretudo, “não há para onde fugir”
04.01.2009 - 17:17 Por Maria João Guimarães
Falta tudo em Gaza, repetem habitantes da Faixa – ou melhor, repetem os poucos habitantes com quem é possível contactar, a pequena minoria cujos telefones continuam com vida depois de bombardeamentos israelitas terem atingido várias antenas da operadora de comunicações móveis local, a jawal.
“Não há comida, não há gás”, diz por telefone o trabalhador de uma ONG e documentarista Mohammed al-Majdelawi, que vive no campo de refugiados de Jabaliya, na Cidade de Gaza. “O meu pai foi à padaria ontem e esperou cinco horas por um saco de pão que não foi suficiente para alimentar a minha família de 11 pessoas”, conta. “Hoje fui eu tentar correr todas as padarias, mas não encontrei nem uma fatia de pão – as padarias estavam todas fechadas.”
O jornalista Azmi Keshawi, que vive na Cidade de Gaza, conta: “Não há o que comer. Não há electricidade, e não havendo electricidade não há água. Não há gás.”
Falta tudo, e isso já começa a parecer normal depois de mais de uma semana de operações militares israelitas e depois da entrada de tropas terrestres. Azmi acaba por contar que no seu caso – é diabético – já só tem uma dose de insulina. E o que vai fazer? “Vou tentar pensar numa solução, numa alternativa. Este é só mais um exemplo de como as coisas estão por aqui”, comenta.
“Os mísseis caem nas nossas casas, mesquitas, mercados e até hospitais”, diz pelo seu lado Mohammed al-Majdelawi, para dizer de seguida uma das frases mais repetidas por quem vive em Gaza: “Não há um sítio seguro para onde possamos ir.”
“É um pesadelo para quem quer que esteja aqui – não há para onde fugir”, sublinha Azmi Keshawi. “Onde quer que se esteja, pode-se ser alvo. Ainda ontem a minha casa tremeu, todo o prédio tremeu, quando caiu uma bomba perto.”
Depois há ainda o problema do frio e das janelas: “Tenho dois dos meus filhos doentes, com gripe, porque temos de deixar as janelas abertas – senão o vidro pode partir e os estilhaços podem acertar em alguém, para além de que não há vidro no mercado”, conta Azmi.
O telefonema com Azmi Keshawi acaba interrompido porque ele tem de usar a luz do telemóvel para iluminar a cara da filha mais nova, uma bebé, que está a chorar. O telefonema com Mohammed al-Majdelawi acaba quando ele avisa que está a ficar com pouca bateria no telefone. “É difícil tentar explicar todo o nosso sofrimento. Eu pergunto ao mundo: como viveriam sem electricidade, com casas destruídas, mísseis a cair noite e dia, e sem comida. Imaginem as vossas crianças a dizer que não conseguem dormir por causa do barulho dos aviões....”
A falta de electricidade faz com que não haja água, porque para esta ser bombeada para as casas precisa de energia. Faz com que os elevadores não funcionem num sítio onde há muitos prédios altos. A falta de electricidade e ainda de gás faz com que não haja aquecimento numa altura em que está frio mas é preciso deixar as janelas entreabertas. Faz com que não se possa cozinhar – mas ninguém se queixa disto, porque já nem há comida para cozinhar.
Pior, faz com que o principal hospital da zona esteja a depender de “dois geradores de 450 kilowatts”, diz Azmi Keshawi. “Estes geradores estão quase a ficar sem combustível para funcionar. E quando isso acontecer o que vai acontecer às pessoas que estão nos cuidados intensivos, bebés nas incubadores? Esta é uma catástrofe iminente.”
“Esta guerra não é contra o Hamas”, repete Azmi Keshawi. “É contra os palestinianos de Gaza. Toda a gente tem medo. É uma situação se precedentes. Já vi muitos confrontos entre israelitas e palestinianos. A cada vez, a onda de violência é maior do que a anterior. Mas esta é a maior de todas, sem comparação. Levaram isto a um nível diferente. Estima-se que de 480 mortos 25 por cento são mulheres e crianças e que dos 3800 feridos 40 por cento são civis. Contra quem é esta guerra?”
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