Muro de Berlim: Uma festa longínqua para Elmar
09.11.2009 - 10:18
Nas narrativas à volta do Muro de Berlim há muitas histórias de pessoas de Leste a tentar fugir para o Oeste. Pessoas que foram mortas a tentar passar o Muro, que fugiram através de outros países, que conseguiram escapar através de meios mais ou menos excêntricos. Mas na Alemanha Ocidental também havia quem fizesse a sua escapadela, não para Leste, mas para Berlim Oeste. Alguns jovens iam viver para a cidade porque aí não havia serviço militar obrigatório.
Elmar foi um deles: um jovem ocidental a viver "numa pequena aldeia numa zona rural perto da fronteira com a Holanda", foi para Berlim Ocidental contrariando as autoridades e escapando ao serviço militar obrigatório em 1986. Na altura não ligava muito ao Muro, nem à divisão. "Como não tinha família no Leste, o Muro não era uma coisa muito grave para mim", conta. "Era uma coisa que estava lá, sabia que era injusta, mas estava lá."
Elmar tinha estado em Berlim Leste uma vez. Lembra-se de ver cartazes com slogans sobre o socialismo, escadas rolantes partidas, coca-cola do Leste, "que sabia a remédio". E mais tarde, passara algumas vezes, de metro, pela parte oriental: "O comboio entrava devagar nas estações fantasma. Uma vez vi um polícia do povo [de Leste] com uma Kalashnikov a ver se havia alguém a tentar agarrar-se à carruagem" para fugir para o lado ocidental.
Um jovem com 20 anos em 1989, Elmar não participou na onda de festa colectiva. Na noite da queda do Muro, nem se apercebeu de nada porque estava a ir para uma discoteca. "Quando voltei, por volta das três, vi uma data de Trabants. E pensei: o que é isto, tantos carros do Leste? Mas fui para a cama. Ouvi no dia seguinte o que aconteceu."
Morando no centro de Berlim Oeste, na zona do Jardim Zoológico, sentiu os efeitos da queda do Muro: enchentes no supermercado. Acabou por mudar o sítio onde fazia as compras. Também demorou a ir ao Leste: "Fui cerca de três meses depois de o Muro cair. Primeiro não me apetecia, havia uma grande confusão, era tudo mais complicado." Viu uma Berlim Leste a "começar uma mudança para um outro tempo", a Berlim Leste da noite, "dos clubes, dos concertos nas casas ocupadas... Era muito interessante, havia muita coisa nova".
Não previu a reunificação. "Pensava que a RDA poderia ser outro país, democrático - que merecesse esse nome, democrático - ou com outro nome." Do processo de reunificação, critica "a política que foi acabar tudo o que era de Leste": "Havia também coisas boas, por exemplo era muito mais fácil às mulheres terem bebés porque todos podiam ter os seus filhos nos infantários".
Elmar preferiu ser identificado só pelo primeiro nome. Não quer ser encontrado no Google a referir num artigo as suas ideias de esquerda.
Restam 1200 caracteres
Os comentários deste site são publicados sem edição prévia, pelo que pedimos que respeite os nossos Critérios de Publicação. O seu IP não será divulgado, mas ficará registado na nossa base de dados.
Quaisquer comentários inadequados deverão ser reportados utilizando o botão “Denunciar este comentário” próximo da cada um. Por favor, não submeta o seu comentário mais de uma vez.

