Eurodeputado espanhol expulso da Venezuela diz ter sido vítima de um “sequestro”
14.02.2009 - 16:51 Por Dulce Furtado, com agências
O eurodeputado espanhol que foi expulso ontem à noite da Venezuela – por ter proferido afirmações que Caracas considerou “ofensivas” contra o Presidente, Hugo Chávez, e as autoridades eleitorais do país – disse esta tarde, à chegada a São Paulo, que foi vítima de algo que “pareceu um sequestro”.
“Não sei se o será em termos jurídicos, mas em termos coloquiais creio que sequestro é uma palavra que se adequa muito bem ao que sucedeu”, avaliou Luis Herrero, a quem o Ministério venezuelano dos Negócios Estrangeiros deu ordem de “pronta saída” a pedido da Comissão Eleitoral do país.
Herrero, deputado do Partido Popular espanhol (de direita), encontrava-se em Caracas a convite do partido democrata-cristão Copei, na qualidade de observador eleitoral ao referendo que amanhã se realiza na Venezuela – uma consulta da qual Chávez quer sair com luz verde para retirar todos os limites constitucionais aos mandatos elegíveis por sufrágio, incluindo o da chefia de Estado.
Ontem, em declarações ao canal privado venezuelano Globovision, Herrero classificara Chávez como um “ditador” que quer “impor o medo de forma premeditada” e apelou aos venezuelanos que “votem em liberdade”. Mais. Criticou a Comissão Eleitoral venezuelana por estender em duas horas o período de abertura das assembleias de voto até às 18h00 locais – uma decisão que pode prestar-se a “manobras pouco transparentes e antidemocráticas”, avaliou então.
As autoridades eleitorais do país exigiram imediatamente a sua expulsão, ao que o Ministério dos Negócios Estrangeiros deu pronto aval, justificando-o com a necessidade de “preservar o clima de paz e o correcto decorrer do processo eleitoral de 15 de Fevereiro”.
Herrero reiterou esta tarde as afirmações feitas anteriormente: “Não me corrijo nem me arrependo”, disse, citado pelo diário "El Mundo", e avançou que não quer ser “protagonista de nenhuma história”. “As verdadeiras vítimas aqui são os venezuelanos, que aturam aquele senhor [Chávez] já faz dez anos”.
Enfiado “à força” numa carrinha
No relato feito já chegado ao consulado espanhol em São Paulo, e citado pela agência noticiosa Efe, Herrero diz ter sido abordado “por um homem à paisana que se identificou como polícia”, enquanto estava a tomar um café no hotel de Caracas em que se encontrava alojado: “Disse-me que deveria aguardar uma mensagem.”
Algum tempo depois, narra ainda o eurodeputado, “chegou outra pessoa, que se identificou como representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros, acompanhado por uns seis ou oito polícias” que o “levaram pelos braços” e o enfiaram “à força numa carrinha”, sem lhe darem qualquer informação para onde o levavam.
À chegada ao aeroporto de Maiquetía, o veículo policial dirigiu-se para a pista, acabando Herrero por ser enfiado num avião da Varig com destino ao Brasil – mas só ao fim de uma hora, depois de as autoridades venezuelanas fazerem chegar ao local o passaporte do deputado, que ficara no hotel. As bagagens de Herrero haviam de seguir num outro voo, algum tempo mais tarde, com destino ao Brasil.
O deputado afirma que já só quando se encontrava a bordo do avião pode comunicar com o embaixador espanhol na Venezuela.
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