• |
  • Iphone
  • |
  • Mobile
  • |
  • RSS
  • |
  • Twitter
  • |
  • Facebook
  • Siga-nos em:

Palavras do Presidente foram decisivas para Sócrates vetar compra da TVI

27.06.2009 - 08:37 Por Sofia Rodrigues, Nuno Simas

  • Votar 
  •  | 
  •  0 votos 
O primeiro sinal, discreto, foi dado pelo ministro da Presidência, já depois de Cavaco Silva ter exigido explicações da Portugal Telecom (PT) sobre o negócio da compra de parte da Media Capital, dona da TVI. No final do Conselho de Ministros de quinta-feira, Pedro Silva Pereira deixava no ar dúvidas sobre o negócio, ontem vetado pelo executivo de José Sócrates.

Daniel Rocha (arquivo)

Cavaco Silva exigiu explicações da Portugal Telecom (PT) sobre o negócio

"Pelo que sabemos dos intervenientes, esse negócio não se confirma. De qualquer modo, essa mensagem do Presidente da República é dirigida expressamente à PT e não ao Governo, nem o Governo poderia dar explicações relativamente a informações que não possui", dizia Silva Pereira.

A verdade é que, desde o debate da moção de censura do CDS, quarta-feira, Sócrates e o Governo viveram dias agitados. Com muitas pressões e tensão. Até Cavaco Silva não ficou de fora, ao dizer que ficou com muitas dúvidas quanto aos contornos do negócio. Abriu "uma excepção" e falou em público sobre negócios, face à "natureza do sector que está causa e pela importância nacional da empresa de telecomunicações". Exigiu transparência numa altura em que se admitia como iminente o acordo PT-Media Capital. "Face às dúvidas fortes que neste momento estão instaladas na sociedade portuguesa, é importante que os responsáveis da empresa de telecomunicações expliquem aos portugueses o que está a acontecer entre a PT e a TVI. É uma questão de transparência."

Incómodo com Cavaco
A frase de Cavaco veio juntar-se ao vendaval político que saiu do duelo verbal entre Sócrates e Diogo Feio, do CDS, e Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, no debate de quarta-feira. O primeiro-ministro respondeu exaltado à pergunta de Feio sobre qual o interesse do CDS numa eventual mudança de linha editorial da TVI, tão criticada por Sócrates, até no último congresso do PS. "Está preocupado com alguma coisa? Como eu o percebo... Porque o senhor deputado acha que a TVI tem seguido uma linha contra o Governo e deve manter-se".

Entre dirigentes socialistas, admite-se que a forma como decorreu o debate tenha feito "mossa" na opinião pública. A que se juntou, no dia seguinte, a declaração de "excepção" de Cavaco sobre o negócio. O incómodo foi grande entre a maioria, mas admitido entre dentes. No PS e no Governo, perceberam-se os efeitos negativos que teria o arrastamento da polémica, que não abrandava. O Governo continuava debaixo de fogo. A líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, chegou a sugerir que Sócrates mentiu ao dizer que nada sabia do negócio, dado que o Estado tem uma golden share na PT.

Ontem de manhã, Sócrates foi ao Parlamento para a interpelação do PCP e, ao contrário do que é normal, tomou a iniciativa de falar aos jornalistas. Para dizer que o Governo vai opor-se ao negócio. Questão central: para que "não haja a mínima suspeita" de que a operação "se destina e qualquer alteração da linha editorial" do canal. E justificou a decisão por uma questão de transparência quer quanto aos "partidos políticos" quer a "protagonistas políticos" - uma definição em se inclui Cavaco.

Para tentar acabar de vez com as dúvidas sobre as reais intenções do negócio, o deputado socialista Arons de Carvalho desafiava entretanto os partidos da oposição a provarem que o afastamento do director-geral da TVI e de Manuela Moura Guedes, apresentadora do Jornal Nacional, era o objectivo da operação. Mas no recuo do Governo, admitem os socialistas, também pesou o clamor público em torno da transacção.

Já depois de Sócrates ter anunciado o recuo, Ferreira Leite acusou o primeiro-ministro de usar a golden share na PT para defender a sua imagem, recorrendo "ao argumento mais extraordinário", o de afastar suspeições, para vetar o negócio com a Media Capital. "Utilizou um argumento impensável para quem tem alguma responsabilidade de Estado, o argumento da defesa da sua imagem. É a primeira vez que uma golden share é utilizada com semelhante argumento", criticou. E concluiu que a sucessão de factos mostrou que "tinha razão" por ter afirmando que não podia ser verdade que o primeiro-ministro desconhecia o negócio, como afirmou na quarta-feira.

Trapalhada, diz oposição
Da esquerda à direita, qualquer que seja a leitura do caso, os partidos da oposição não ilibam a imagem do Governo e de José Sócrates em particular.

O CDS-PP associou o "recuo" do Governo à continuidade de José Eduardo Moniz à frente do canal. "Quando o director já não sai, já não há interesse no negócio", afirmou o deputado Pedro Mota Soares, apontando uma contradição a Sócrates: "Há dois dias, queria ter mais uma televisão, agora já não quer."

Para Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda, o caso "é uma demonstração da trapalhada, falta de transparência e de seriedade política". O deputado nota a mudança de posição em poucos dias: "quarta e quinta-feira, era o mercado a funcionar e que deixassem os privados resolver tudo; hoje, afinal a golden share obriga o Governo a pronunciar-se e afinal parecia que havia qualquer coisa de profundamente obscuro".

Na mesma linha, o deputado do PCP António Filipe diz que o veto foi uma decisão avisada, mas retira algumas conclusões: "Põe em evidência que a decisão do negócio só podia ser tomada com a concordância do Governo e retira credibilidade à ideia de que o Governo não estava a par do negócio".

Comentar Critérios para publicação de comentários dos leitores

Restam 1200 caracteres

Os comentários deste site são publicados sem edição prévia, pelo que pedimos que respeite os nossos Critérios de Publicação. O seu IP não será divulgado, mas ficará registado na nossa base de dados.

Quaisquer comentários inadequados deverão ser reportados utilizando o botão “Denunciar este comentário” próximo da cada um. Por favor, não submeta o seu comentário mais de uma vez.