O boom da dot-com, versão 2.0
15.04.2006 - 11:39 Por Pedro Ribeiro
Num discurso em Londres no mês passado, Rupert Murdoch declarou: "O poder está a fugir à antiga elite da nossa indústria - os editores, os administradores, até, admita-se, aos proprietários." A indústria de que Murdoch falava era os media; e Murdoch é um dos mais poderosos dos proprietários dos media, através da sua holding NewsCorp.
A NewsCorp detém jornais, redes de televisão e estúdios cinematográficos; mas a unidade a que Murdoch dedicou mais atenção no seu discurso foi o MySpace.com - uma comunidade on-line com entre 60 a 70 milhões de utilizadores registados, dos quais 35 a 43 milhões são utilizadores reguladores.
O MySpace.com é o símbolo mais conhecido de uma nova geração de aplicações da Internet, a "Web 2.0". Se a primeira grande vaga de empresas da Internet foi dominada por serviços de e-comércio, a nova vaga é constituída por serviços como o MySpace, cujos conteúdos são criados pelos próprios utilizadores, e que funcionam na lógica de redes peer-to-peer (utilizador-a-utilizador).
Os grandes conglomerados dos media nos Estados Unidos estão a investir em força nestas novas aplicações. A NewsCorp de Murdoch pagou no ano passado 480 milhões de euros pelo MySpace. Parecia muito dinheiro - mas a aposta está a render.
A "população" do MySpace, contada em número de utilizadores registados, é igual à da França (e ainda está em crescimento). Segundo a CNN, o serviço gera receitas mensais de publicidade de 10 milhões de euros - uma insignificância no contexto da NewsCorp, mas uma receita apreciável (em todo o ano de 2005, o PÚBLICO angariou 17,5 milhões de euros em publicidade). Em Março, segundo o jornal inglês The Guardian, os sites do MySpace tinham mais visitas que os da BBC.
Outras firmas dos media seguem o exemplo da NewsCorp. As cadeias americanas de jornais Washington Post e Knight Ridder adquiriram em conjunto (por algumas dezenas de milhões de dólares) o Tribe.net, outra comunidade on-line, semelhante ao Orkut - que já havia sido adquirido pela Google, que por sua vez também comprou o Blogger (a mais popular das ferramentas para criar blogues).
A AOL, divisão para a Internet da Time Warner, adquiriu uma série de pequenas start-ups na área da distribuição de conteúdos em redes de peer-to-peer: o Truveo (vídeo) e o SingingFish (música).
A Yahoo pagou 30 milhões cada por dois dos serviços mais paradigmáticos da Web 2.0: o Flickr (rede de partilha de fotografias) e o del.icio.us (agregador on-line de "favoritos"). Há especulação na imprensa americana de que a Yahoo poderá também comprar outro serviço extremamente popular de partilha de vídeos, o YouTube.
A Microsoft está a desenvolver serviços semelhantes, através do seu portal MSN; a Viacom criou uma divisão específica para serviços de "web social", e poderá comprar o Facebook (comunidade on-line virada para escolas nos EUA) ou o Friendster (um dos primeiros "clubes de amigos" on-line, cujo valor de mercado estará hoje acima dos 40 milhões de euros).
Porque investem as grandes empresas dos media nestes serviços? Porque, disse Murdoch no discurso em Londres, "esta é uma geração que pode ser descrita como a geração MySpace, que fala consigo própria num mundo sem fronteiras". As firmas dos media tradicionais não querem perder contacto com essa geração, para quem a Internet é um meio mais importante de comunicação que os meios tradicionais.
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