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Conselho de Redacção reuniu-se ontem

Direcção da Lusa acusada de ceder a "pressões do Governo"

07.02.2006 - 11:57

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O conselho de redacção (CR) da agência Lusa considerou que o processo sobre as notícias e desmentidos a respeito da instalação da Internet de banda larga em todas as escolas públicas do país (ver PÚBLICO do dia 4) indicia uma caso de "cedência" a pressões governamentais.

Inácio Rosa/Lusa

O PSD quer ouvir directora de informação da agência no Parlamento

Num comunicado emitido ontem, ao princípio da noite, o CR, que esteve reunido com a directora de informação, Deolinda Almeida, ao longo de várias horas, escreve: "Analisando todo o processo, o CR considera que o mesmo indicia situações de cedência a pressões do Governo, traduzida na difusão das referidas notícias."

Para comprovar o "envolvimento do Governo" na série de notícias e desmentidos sobre o caso, o CR assinala o facto de Dulce Anahory, assessora do ministro do Ciência, ter telefonado a uma das três jornalistas que investigaram as declarações do primeiro-ministro sobre a banda larga, assegurando-lhe que a notícia que dava conta de que nem todas as escolas estavam equipadas com tal sistema seria "corrigida" por uma das fontes. "Nesse mesmo telefonema, a assessora disse ainda que a Lusa iria receber de seguida, por telefone, uma série de desmentidos", pode ler-se. A "rectificação" acabou por ser feita somente por uma das fontes contactadas. O CR nota que Dulce Anahory contactou "diversas vezes" a Lusa "quer para falar com as jornalistas autoras da notícia, quer para falar com o editor ou até mesmo com "um director de serviço"".

O PÚBLICO apurou ainda que a assessora terá afirmado que a notícia que informava sobre a impossibilidade de instalar a banda larga em todas as escolas fora fabricada com o intuito de prejudicar a visita de Bill Gates, fundador da Microsoft, a Portugal.

Confrontada com a posição do CR, Deolinda Almeida disse não ter tido "conhecimento de qualquer pressão" e sublinhou que "ouvir todas as partes não significa "cedência"". Isto, porque a directora de informação defendeu que as jornalistas deviam ter ouvido o Ministério da Ciência quando elaboraram a notícia: a responsável acusou-as de terem redigido informação que foi "destruída por falta de acompanhamento". Apesar de concordar com o princípio do contraditório, o CR lembrou que "neste caso específico a notícia poderia ter saído antes de contactado" o ministério, classificando a mesma como "um bom exercício de jornalismo e um exemplo de investigação jornalística".

Na morosa reunião do CR foi também ouvido o editor da secção Nacional, António Caeiro, sobre a "nova versão" de uma notícia que contrariava por completo um outra colocada em linha cerca de uma hora antes e assinada pelas mesmas três jornalistas. Nessa notícia, Caeiro citava uma fonte anónima do Ministério da Ciência para "corrigir" a versão anterior e garantir a banda larga em todas as escolas. De acordo com o CR é "inaceitável que se corrija uma notícia citando uma fonte não identificada".

PSD quer ouvir Deolinda Almeida na AR

A bancada parlamentar do PSD requereu à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias a audição, com carácter de urgência, da directora da informação da agência Lusa, Deolinda Almeida. O pedido, assinado pelo líder parlamentar, Marques Guedes, surge na sequência da notícia divulgada pelo PÚBLICO (edição do dia 4) sobre o severo tratamento que a responsável deu a três jornalistas. "Está a ocorrer na agência noticiosa Lusa um clima de intimidação e de controlo da informação em tudo inaceitável e incompaginável com um dos direitos constitucionais fundamentais - a liberdade de informação", pode ler-se.

O PSD quer esclarecer eventuais interferências governamentais e, por isso, aponta: "De acordo com os dados agora publicamente conhecidos, tem vindo a verificar-se, com alguma insistência, uma manifesta intromissão da directora e de outros responsáveis da informação da Lusa no trabalho jornalístico produzido pelos responsáveis dessa agência noticiosa." Os deputados sociais-democratas assinalam a "gravidade da situação" e pretendem questionar Deolinda Almeida, "a fim de o Parlamento poder averiguar da verdadeira amplitude da situação que está a ser vivida no seio daquela redacção".

O PÚBLICO tentou ouvir vários membros da direcção da Lusa, mas nenhum quis falar sobre o assunto.

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