Te quiero/Eg elskar deg
04.10.2007 - 08:27 Por Susana Almeida Ribeiro
Quando Rosa viu Åsmund pela primeira vez, atirou-lhe um "ciao". Ele respondeu-lhe com outro "ciao", à queima-roupa. O encontro, à porta de um "palazzo" italiano que servia de residência a estudantes Erasmus, durou uns escassos segundos, mas serviu para que Rosa percebesse que Åsmund, àquela hora da manhã, era mais do que um norueguês cansado, sem dormir há vários dias. Rosa viu nele a fisionomia "cool" de um “viking”. E Åsmund, estudante de mestrado - e guitarrista da banda norueguesa Nullskatte - percebeu que aquele ciao lhe devolveu alguma energia, depois de uma intensa digressão de duas semanas com a banda.
Recém-chegados a Siena, Åsmund Prytz e Rosa Correa Rodríguez coincidiram naquelas escadas, naquele minuto. Ela estudava Economia na Universidade de Barcelona e resolveu mudar de ares. Ele vinha da Noruega com uma bolsa de mestrado, depois de uma licenciatura em Agricultura que não queria pôr imediatamente em prática. Eram dois dos 276 alunos Erasmus que, no ano lectivo de 1997/1998, escolheram Siena para viver e estudar.
No dia seguinte voltaram a encontrar-se. Sem o saberem na véspera, frequentavam o mesmo curso de italiano. Dessa vez não se contentaram com um olá. No intervalo começaram a falar. Sobretudo de música. Ela era fã de punk-rock e de música de garagem. Isso impressionou-o. Åsmund contou-lhe que tinha conhecido, uns dias antes da partida para Itália, um grupo underground espanhol, os Pleasure Fuckers. No dia seguinte, Rosa chegou ao curso de italiano com uma "t-shirt" da banda, da qual era fã. Ficaram amigos.
Começaram a frequentar os mesmos bares e os mesmos convívios Erasmus. Numa dessas noites, Åsmund pegou na sua guitarra e improvisou os acordes do tema The KKK took my baby away (Ramones). Rosa emprestou a voz. Algumas músicas depois, a espanhola percebeu que o seu namorado de sempre não era, afinal, o "Mr. Right" e Åsmund fez perceber à sua namorada norueguesa que as coisas tinham mudado. Um mês depois do primeiro "ciao" foram viver juntos, à revelia das respectivas famílias e do senhorio de Åsmund. La Coppia Piu Bella Del Mondo (“o par mais bonito do mundo”), de Adriano Celentano, foi a banda sonora daqueles dias. O norueguês e o espanhol ficaram arrumados na gaveta. Era em italiano e inglês que falavam os dias. “Era como nos filmes. ‘I love you, baby’ e essas coisas assim”, lembra Rosa.
“Geração Erasmus”
A história de amor entre Rosa e Åsmund pode ser especial, mas não é a única, num mundo universitário que privilegia cada vez mais os intercâmbios e a mobilidade. Desde 1987, o programa Erasmus já deu bolsas a mais de 1,5 milhões de estudantes. Até 2012, a Comissão Europeia espera que este número atinja os três milhões de estudantes.
Rosa e Åsmund são apenas um casal, com final feliz, da “geração Erasmus”, uma expressão usada em Dezembro do ano passado pelo presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, numa conferência de imprensa que deu o "pontapé de saída" para as celebrações dos 20 anos deste projecto e que hoje e amanhã conhece o seu encerramento. Nessa ocasião, Barroso chamou ao programa “um símbolo do que a Europa faz de melhor”. Rosa e Åsmund, à semelhança de milhares de outros jovens, fazem hoje parte de uma “elite europeia cada vez mais numerosa e fortalecida com uma experiência intercultural e multilingue, condição essencial para a União Europeia do futuro”, nas palavras do comissário europeu da Educação, Formação e Cultura, Ján Figel.
Findo o Erasmus em Siena, Rosa e Åsmund separaram-se fisicamente durante algumas semanas. “Quando o nosso ano em Itália terminou, ambos sabíamos que isso não era o fim da nossa história”, diz Rosa. A estudante voltou a casa – a sua família é oriunda da Galiza mas os seus pais vivem em Valência – para anunciar que pretendia ir viver para a Noruega. “De início a minha família não gostou muito. Enquanto católicos, não acolheram bem a ideia de ir viver com o Åsmund sem estar casada com ele. Mas a minha família sempre apoiou as minhas decisões e por isso acabaram por aceitar. Ou então aceitaram porque eu não lhes dei alternativa. Tiveram que lidar com isso”.
Durante algum tempo, viveram os dois em Bangsund. “Foi uma mudança dramática. De Barcelona para Bangsund, uma pequena vila norueguesa com cerca de mil habitantes”. Só mais tarde se mudariam para Oslo, onde Åsmund trabalha actualmente como consultor do departamento de Alimentação do Ministério da Agricultura.
Entre 1998 e 2002, Rosa viveu entre Oslo e Barcelona. Durante esse período, trabalhou num banco, na capital da Catalunha, e, de regresso à Noruega, trabalhou durante um ano como empregada de quarto, num hotel, para aprender norueguês e arranjar um outro tipo de trabalho, mais de acordo com a sua formação. Hoje em dia trabalha para uma multinacional de software, como directora de marketing. A língua não é um problema, porque o idioma de trabalho é o inglês e as pessoas são de diferentes nacionalidades, o que perpetua o “ambiente Erasmus”, explica Rosa.
O percurso pessoal e profissional de Rosa e de Åsmund, que falam quatro línguas – norueguês, espanhol, inglês e italiano – e têm amigos espalhados pelo continente europeu, encaixa nas palavras da vice-presidente da Comissão Europeia sobre o Erasmus. Perante uma plateia de ex-alunos do programa, Margot Wallström afirmou: “Espero que todos vocês aqui presentes hoje – como o próprio Erasmus [de Roterdão, o humanista holandês que deu nome ao programa] – tenham feito amigos para a vida noutros países. Para mim, essa é uma parte absolutamente fundamental de se ser europeu”. “Espero sinceramente que a amizade – tanto como a educação – tenha sido o fruto da vossa experiência Erasmus”.
Margot Wallström realçou ainda, na mesma ocasião, a importância do Erasmus na empregabilidade dos jovens e os seus efeitos na inovação e na criatividade europeias. “A lição final da experiência Erasmus é que aqueles que beneficiaram da Europa, podem dar alguma coisa à Europa em troca”. “Vocês podem ser embaixadores europeus”, disse. Nesse caso, é provável que Portugal fique bem representado no estrangeiro. No ano lectivo de 2004/2005, de acordo com a Comissão Europeia, 4166 alunos estrangeiros fizeram Erasmus no nosso país, fazendo de Portugal o nono país mais procurado. Pelo contrário, saíram para o estrangeiro menos de 4000 alunos portugueses, posicionando o país em 12º lugar em termos de mobilidade.
Tripla efeméride
Rosa e Åsmund vivem juntos em Oslo desde 2002 e casaram-se em Agosto último, em Monforte de Lemos (Galiza). Em 2007 cumprem-se dez anos desde que se conheceram, 20 desde o início do programa Erasmus e 50 desde a assinatura do Tratado de Roma, em Março de 1957, que lançou as bases da União Europeia tal como a conhecemos hoje. Apesar desta tripla efeméride, nenhum dos dois pode estar presente na conferência que assinalou o arranque dos festejos dos 20 anos de Erasmus, no dia 18 de Janeiro, a cargo da Erasmus Student Network (ESN), uma rede à qual pertencem 1,4 milhões de jovens, dispersos por cerca de 30 países. Entre Abril e Junho, as iniciativas – colóquios, exibições, festivais... – multiplicaram-se por vários países europeus. As comemorações terminam hoje e amanhã, com a conferência da Comissão Europeia no Centro Cultural de Belém, com a presença do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, e do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa.
No casamento de Rosa e Åsmund - em Monforte de Lemos, Lugo, Galiza - estiveram presentes pelo menos duas mancheias de amigos de Erasmus. “Eles fazem parte da nossa história”, diz Rosa.
Sempre que estão juntas, as famílias de ambos também vivem um Erasmus próprio, fazendo-se entender como podem. A maior parte das vezes em linguagem gestual. Norte e Sul convivem sem problemas e com muito humor. Rosa acha que os noruegueses são os “espanhóis da Escadinávia”.
Passando em retrospectiva a sua experiência, Åsmund diz que o Erasmus teve “consequências positivas gigantescas” na sua vida. Mais faladora, numa atitude tipicamente mediterrânea de estar na vida, Rosa vai mais longe: “Pertencer ao programa Erasmus mudou a minha vida (…) Mudar-me para um país novo, fazer parte de outro sistema educativo, aprender uma língua nova e conhecer novos amigos foi óptimo. Claro que conhecer o Åsmund foi o ponto alto desse ano e o melhor que me aconteceu. Já passaram dez anos, estou muito satisfeita com a minha carreira, continuo a manter o contacto com os meus velhos amigos de Erasmus e casei-me com o homem que amo”.
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