Ungaro e a amargura com sabor a Lindsay Lohan do fim das casas de costura
10.11.2009 - 14:17 Por Joana Amaral Cardoso
Nem debate, nem masterclass: um pouco dos dois à mistura com uma sessão de perguntas e respostas e com Emanuel Ungaro a servir como testemunho vivo de uma era outra, da moda, do cinema, do firmamento da beleza. Um ex-costureiro que abandonou a sua casa, que vive agora sob o seu nome mas sem a sua aprovação. Falou à plateia do 3º Estoril Film Festival (EFF) sobre o “desastre”, “horrível”, que é ter agora na sua ex-maison de mode a actriz e favorita dos paparazzi Lindsay Lohan como consultora criativa da Ungaro.
É mais um capítulo do livro que o criador francês podia escrever sobre o fim dos tempos na couture. Na noite de segunda-feira, Ana Salazar, Ungaro, José António Tenente, Paulo Branco, jornalistas, produtores, profissionais de comunicação de moda viram "The September Issue", o documentário fly on the wall sobre a feitura do número de Setembro de 2007 da "Vogue" americana.
A estrela: Anna Wintour, a temida editora da revista, a papisa que decide o que está na bíblia da moda, o que está, afinal, na moda. As vítimas: os seus subalternos, os criadores que se submetem ao seu olhar crítico e cínico, aos seus silêncios grávidos de opiniões “definitivas”, nas palavras de Emanuel Ungaro. É um reinado, defende o costureiro, um pouco diferente do da sua antecessora, Diana Vreeland, de Nancy White na "Harper’s Bazaar", do tempo em que fotógrafos como Irving Penn ou Richard Avedon construíam imagens de beleza.
Ungaro, pela terceira vez no EFF, não conseguiu esconder o saudosismo e alguma amargura ao olhar para o panorama actual. Não tanto pela falência de casas como a Lacroix ou pela proliferação de lojas de moda rápida como a Zara ou H&M. Simplesmente por acreditar na independência do criador - que “nunca se engana”, como sorria o produtor e director do festival Paulo Branco – contra as leis do mercado. Às perguntas do público (já sem muitos dos convidados mais conhecidos), algumas de jornalistas do sector, respondeu com suspiros e sorrisos perante “a ditadura das tendências”, constatando que “a moda é uma indústria e que os EUA são um enorme mercado” e que se vive “ambiguidade” nesse equilíbrio entre mercado, distribuição, crítica e visibilidade nas revistas de moda mais conceituadas.
Quem fica a perder, insiste, são os verdadeiros criadores de moda – como Alexander McQueen, destaca entre os mais “jovens”. O tema da noite, além do filme de R.J. Cutler, era o vago “Quem dita a moda: Os criadores ou as revistas de moda?”. Ungaro não considera o trabalho das revistas “negativo. É muito orientado; para o melhor e para o pior”, diz. Mas há outros elementos, que nem chegaram à sala do EFF: o que se veste nas ruas, o espírito de um tempo, a música, as artes. Ficou-se pelas celebridades, muito por culpa de Wintour, que as pôs na capa da "Vogue", que foi estrela de filme ela mesma. “Foi a promotora das estrelas como musas”, por motivos comerciais, diz Ungaro, mas essas estrelas “são só starlets e não Hollywood stars”.
Como a infame Lohan. “Pobres starlets a trabalhar para casas de costura”, diz com desprezo indisfarçável. A colecção com nome Ungaro que subiu à passerelle da Semana de Moda de Paris em Outubro e com o dedo de Lindsay Lohan foi “um desastre”. Nada posso fazer para convencer as pessoas a trabalhar de forma diferente. Estão a perder a alma, mas esse é o destino de muitas casas que ficam sem o seu criador”, disse em resposta a uma pergunta do público. Recupera o seu mestre, Balenciaga, e o seu contemporâneo, Givenchy, e o seu próprio tempo no activo: “Quando víamos as nossas casas víamos lá a nossa alma. E infelizmente isso perdeu-se para sempre. As grandes casas já não estão interessadas em moda. Fazem-no por publicidade”.
Steven Faerm, director da Parsons The New School for Design de Nova Iorque, acha que esta associação a celebridades é um sintoma da própria crise. O caso Lohan “é um sinal de que algumas casas estão a fazer de tudo para se manterem à tona de água nesta economia difícil”, como disse ao "Independent".
No final da sessão, defendendo que o ruído causado pela imprensa, pela crítica, nem sempre é positivo – “Em 1968 fiz uma colecção em que misturava quatro padrões, a imprensa arrasou-me mas o mercado viria a dar-me razão” -, lamentando a sina das casas de moda para as quais agora é “mais importante vender malas e perfumes”, ecoavam as suas palavras iniciais: “Sou um costureiro sem exercício”.
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