Uma biblioteca à tona da água no Alvito
02.07.2009 - 11:22 Por Carlos Dias
Na terra onde nasceu o poeta Raul de Carvalho, que lhe dedicou o poema A vila de Alvito, musicado e cantado por Adriano Correia de Oliveira, a biblioteca municipal está sob a ameaça de inundação. É que o equipamento foi construído sobre um lençol freático que debita um constante e elevado caudal de água, bombeado ininterruptamente para a rede de esgotos do concelho do centro do Alentejo.
O novo equipamento cultural, instalado entre 1999 e 2004, substituiu a anterior biblioteca que ocupava um velho edifício de dois pisos, no centro da vila, onde, em tempos idos, funcionou a cadeia e, posteriormente, a escola primária do sexo masculino. Na gestão autárquica de 1997 a 2001 foi acordada entre o município e o ex-Instituto Português do Livro e das Bibliotecas a construção da biblioteca da rede pública. O projecto contemplava um espaço para arquivo e depósito de materiais, além de vários gabinetes técnicos, numa cave, o que levou à escavação do terreno em profundidade.
Os trabalhos de construção foram afectados pelo aparecimento de um "lençol de água" que dificultou o prosseguimento da obra. Foi então que se apurou que na vizinhança "existe um poço". A explicação é do actual presidente da câmara, João Lança Trindade, que confirma a existência do lençol freático. Segundo o autarca, que tomou posse em 2005, "os técnicos optaram por continuar os trabalhos", instalando um sistema de drenagem e de bombeamento automático, construindo a biblioteca sobre uma nascente de água.
Lança Trindade garante que "nunca houve nenhum problema", nem qualquer inundação da cave. A situação é mais complicada para quem trabalha nos serviços de arquivo ou nos gabinetes técnicos paredes meias com a sala das máquinas, onde se mantém a trabalhar em regime permanente o potente motor de uma electrobomba que é fundamental para evitar uma eventual inundação. Ao lado deste motor há um outro pronto a entrar em acção, caso o primeiro sofra uma paragem inesperada. Além do barulho da máquina, ouve-se a água a correr.
No chão da cave há dois alçapões que dão acesso ao sistema de drenagem do lençol freático, cujos caudais são enviados directamente para a rede de esgotos da vila. Fica sem se saber quantos metros cúbicos do aquífero subterrâneo são desperdiçados todos os dias sem qualquer aproveitamento, quando a água é um bem cada vez mais precioso, principalmente numa região que vive com frequência o drama da sua escassez, embora Alvito seja um concelho onde é abundante.
A biblioteca de Alvito viu-se envolvida em polémica aquando da inauguração. Lopes Guerreiro, que presidiu ao município entre 1995 e 2001, esteve entre os que defendiam o nome de Raul de Carvalho para o equipamento, mas António Paiva, presidente da câmara em 2004, liderou os que conseguiram impor o nome de Luís de Camões.
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