Renaldo & Clara: Desta vez Bob Dylan quis mesmo fazer um filme
05.11.2009 - 09:45 Por Luís Miguel Oliveira, Jorge Mourinha
O mítico filme realizado por Bob Dylan durante a sua digressão de 1975 passa no domingo no Estoril Film Festival, que hoje começa. Arrasado na altura da estreia, praticamente desapareceu de circulação. A lenda foi crescendo. Crónica de uma digressão, ensaio labiríntico sobre a aura e a identidade (e os amores) do cantor. Saiu-se bem.
"O Bob Dylan é o tipo com um chapéu", diz Bob Dylan, de cabeça descoberta, a uma senhora que lhe pergunta "onde está Bob Dylan". É uma cena de Renaldo & Clara, realizado pelo próprio Dylan, ficção construída por entre os buracos de um documento (documento construído por entre os buracos de uma ficção), encontro entre o filme-concerto e uma espécie de teatro absurdista.
Quando estreou, em 1978, pouca gente percebeu o que raio se passava em Renaldo & Clara, e o filme ficou com a péssima fama de ser um exercício auto-indulgente, uma manifestação do narcisismo de Dylan envolto em nonsense e incoerência. Poucas vezes voltou a ser visto ou discutido. Mas tem os seus fãs. O crítico de cinema francês Louis Skorecki, um dos maiores dylanianos em circulação, escrevia há algum tempo no seu blogue (quase integralmente dedicado a Bob Dylan) que Renaldo & Clara vale "todo o Visconti, todo o Pialat, todo o Huston, todo o Cassavetes, todo o Peckinpah, todo o De Palma, todo o John Woo"... Se exagera, ou se isto diz mais sobre os desamores de Skorecki do que sobre o seu amor por Renaldo & Clara (e é verdade que diz), só ele pode esclarecer.
Sejamos menos bombásticos e mais modestos no tiro ao alvo: Renaldo & Clara vale, seguramente, todo o I"m Not There com que há dois anos Todd Haynes ensaiou uma aproximação ao labirinto dylaniano. Renaldo & Clara é Dylan a dizer, com todos os dentes e um grande sorriso, que "não está aqui". Procurem o tipo com o chapéu.
A digressão
Um pouco da genealogia por detrás de Renaldo & Clara. Fora aparições esporádicas aqui e ali, Bob Dylan esteve oito anos sem fazer uma digressão a sério, entre o famoso acidente de motorizada em 1966 e a série de concertos com os The Band (ou com A Banda, se preferirem), em 1974. Enquanto viajava e tocava com os seus amigos da Banda, pensava e preparava já um "come-back" em nome próprio, mas rodeado de convidados e amigos, mulheres e ex-mulheres. Chamou a essa digressão a Rolling Thunder Revue, Dylan & amigos(Joan Baez, Bob Neuwirth, Roger McGuinn, etc.) numa caravana itinerante que percorreu os Estados Unidos e o Canadá entre o final de 1975 e o princípio de 1976. O bootleg oficial desta digressão foi editado há poucos anos, na chamada Bootleg Series.
Quis também fazer um filme, um filme-concerto que não fosse bem, ou não fosse só, um filme-concerto. Escreveu um argumento, com colaboração de Sam Shepard (que também aparece no filme). E durante a digressão foi rodando esse argumento, basicamente uma série de cenas soltas, aparentemente desconexas e ligadas umas às outras mais por motes simbólicos (as rosas, por exemplo) do que por qualquer evidente continuidade narrativa. Pelo meio, planos filmados durante as actuações, que incluem versões (por norma óptimas) de várias de entre as suas mais conhecidas canções.
As mulheres de Dylan
O mundo dos espectadores de Renaldo & Clara divide-se em três campos. Os que juram que tudo faz sentido, as articulações entre as cenas e as articulações entre as cenas e as canções (assim convertidas numa espécie de coro), tudo foi escrito e tudo obedece a um plano que não deixou margem para qualquer improvisação. Os que juram que nada faz sentido, que é tudo aleatório e não tem, no fundo, importância alguma, como se fosse uma grande partida que Dylan fez ao exegeta que há dentro de cada fã dylaniano (assim como quem diz "vai e dá-lhes trabalho"). E o terceiro campo, os que se estão nas tintas para o "pequeno teatro" ou para o "pequeno cinema" de Dylan, não perdem um segundo a tentar descodificar os jogos de espelhos entre o filme e a sua vida real (Dylan interpreta Renaldo, e Sara, então a sua mulher, é Clara), se marimbam para os duplos e para as espirais, e aceitam essas cenas como meros intróitos enquanto esperam por um novo momento com uma canção ao vivo.
Digamos assim: o filme dá, de facto, algum trabalho (porventura ingrato), se for visto com a preocupação de identificar e descodificar os simbolismos. Mas dá, sobretudo, prazer, se for visto pelo seu "valor facial", pela ironia que se desprende das conversas e das situações, pela evidência do espectáculo que é Bob Dylan a jogar ao gato e ao rato consigo próprio, com as suas mulheres (Joan Baez foi namorada dele na primeira metade dos anos 60) e, seguramente, com os seus espectadores. E, nessa perspectiva, não é um objecto assim tão estranho, para quem tenha uma ideia do que eram as leituras de Dylan (e também do que sempre foram as suas letras e a sua poesia), dos meios em que ele circulou no tempo em que andava a visitar Edie Sedgwick ou a oferecer canções a Nico: parece evidente que o modelo de cinema de Dylan, até na maneira de explorar a ironia narcisista e o jogo das aparências e das ausências (aquela maquilhagem branca a sublinhar a "performance", a reforçar o "fantasma") vem muito mais das tradições do underground nova-iorquino do que propriamente de Hollywood... E é um belo filme.
Dylan nunca mais quis ser realizador, mas desta vez foi mesmo um realizador.
Luís Miguel Oliveira
Renaldo & Clara
De Bob Dylan
Casino do Estoril, domingo, 8, às 15h00
Rally-paper pelo Estoril Film Festival
Esta é uma proposta de percurso(s) pela programação riquíssima do Estoril Film Festival 2009, que promete dez dias de filmes para todos os gostos, com uma secção competitiva bastante intrigante (que o P2 vai acompanhar) e um leque de selecções paralelas de criar água na boca a muito cinéfilo. As salas do Centro de Congressos do Estoril e do Casino Estoril merecem este ano tornar-se destino de romaria para quem se interessa pelo bom cinema, com a presença de grandes actores e realizadores que vêm acompanhar antestreias ou retrospectivas - Francis Ford Coppola, Juliette Binoche, David Cronenberg, Peter Handke, Sasha Grey... O que se segue é uma ideia de paragens possíveis pelo meio do muito que vai acontecer entre 5 e 14 de Novembro na costa do Estoril.
David Cronenberg
É uma ocasião rara para aceder à obra integral do cineasta canadiano, que começou por ser visto como um simples realizador "de género", mas que é hoje aclamado como um dos grandes "mestres" contemporâneos. E, quando dizemos "obra integral", isso inclui mesmo tudo: não apenas as longas unânimes como A Mosca, Videodrome ou Uma História de Violência, como também as suas curtas-metragens e os seus primeiros filmes (Stereo, Crimes of the Future ou o atípico Fast Company). O festival propõe ainda duas exposições: Chromosomes, painéis de grande dimensão que ampliam fotogramas originais de filmes de Cronenberg, e Red Cars, uma "colagem" de materiais de pesquisa para um projecto que nunca foi concretizado.
Robert Frank
Conhecemo-lo mais como fotógrafo - o seu olhar sobre Os Americanos tornou-o num dos nomes mais influentes da arte do século XX -, mas a aposta aqui é descobrir a sua obra cinematográfica, iniciada pouco depois da publicação de Os Americanos, em 1958. O ponto zero do cinema de Frank - Pull My Daisy, rodado em 1959 com Jack Kerouac, Allen Ginsberg e outros nomes da Beat Generation - é um dos filmes a ser mostrados nas Robert Frank Sessions, que incluem outros títulos míticos do cinema underground, como Candy Mountain ou Keep Busy (mas nada do seu infame documentário sobre os Rolling Stones, Cocksucker Blues, infelizmente...)
Juliette Binoche
Podíamos chamar-lhe "diva", mas a palavra implica um temperamento que pouco tem a ver com a necessidade de Juliette Binoche continuar a forçar os seus próprios limites e a experimentar coisas novas - recém-saída de uma colaboração com o bailarino Akram Khan, In-I, e da rodagem do novo filme do iraniano Abbas Kiarostami, Copie Conforme, a actriz apresenta no Estoril Film Festival a sua exposição Portraits In-Eyes, reunindo desenhos e retratos que Binoche realizou dos cineastas com quem rodou e das personagens que interpretou. Em paralelo, o festival exibe alguns dos seus filmes mais icónicos, entre os quais os raríssimos Má Raça e Les Amants du Pont-Neuf, de Léos Carax, ou Encontro, de André Téchiné.
Victor Erice
É não apenas um dos grandes mestres do cinema contemporâneo, como um dos seus grandes reclusos: apesar da devoção com que O Espírito da Colmeia ou O Sol do Marmeleiro foram recebidos, o basco Victor Erice tem apenas três longas-metragens e duas curtas em carteira numa carreira de 30 anos, e continua a ser um dos segredos mais bem guardados do cinema de autor. No âmbito de uma nova secção - Cineastas Raros -, o Estoril Film Festival mostra as suas cinco obras. A mesma secção apresenta ainda a obra de um outro cineasta muito ligado aos ritmos da natureza, o italiano Franco Piavoli, aclamado por nomes como Andrei Tarkovski e autor de apenas quatro longas em 20 anos.
Portugal
A cinematografia nacional está representada no festival por duas longa-metragens. A concurso na selecção oficial está o novo filme de João Mário Grilo, nove anos depois de A Falha e do telefilme 451 Forte: Duas Mulheres, interpretado por Beatriz Batarda, Débora Monteiro e Virgílio Castelo, baseia-se num guião original de Tereza Coelho e de Rui Cardoso Martins (passa segunda 9 às 19h30, no Centro de Congressos). Fora de competição, Fernando Lopes apresenta em antestreia Os Sorrisos do Destino, com Ana Padrão, Rui Morrison e Milton Lopes, que chegará às salas já no dia 12 (sábado, 7, às 19h30 no Centro de Congressos).
Antestreias
O festival tem a sua quota-parte de fitas apresentadas em antestreia: as mais antecipadas sendo Tetro, de Francis Ford Coppola, O Fantástico Senhor Raposo, a animação de Wes Anderson, O Laço Branco, de Michael Haneke, Palma de Ouro em Cannes 2009, ou o filme-choque Anticristo, de Lars von Trier. Mas nós preferimos direccionar os holofotes para o novo filme da realizadora de O Piano, Jane Campion, Bright Star, sobre a paixão do poeta John Keats e Fanny Brawne (estreia-se em Janeiro; passa quarta, 11, às 22h15, no Centro de Congressos), e para a comédia-surpresa do Verão americano, 500 Days of Summer, de Marc Webb, que explana de modo não cronológico o romance entre Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt e está em risco de não ter estreia comercial entre nós (sexta, 13, às 22h00, no Centro de Congressos).
Os filmes do júri
Se estamos a falar de raridades, vale a pena tomar nota dos filmes realizados por e sobre os membros do júri da competição oficial. Para além da curta de Rui Horta, Rugas, teremos a oportunidade de rever a única longa-metragem dirigida por David Byrne, True Stories (sexta, 13, às 17h00, no Centro de Congressos), bem como o documentário de Peter Guyer e Norbert Wiedmer Sounds and Silence, sobre Manfred Eicher, o produtor e fundador da editora ECM (sexta, 13, às 15h00, no Centro de Congressos).
Lola Montès
É simultaneamente um dos grandes clássicos e um dos grandes filmes malditos da história do cinema. O último filme de Max Ophüls, Lola Montès, história da "mais escandalosa mulher do mundo", cortesã do século XIX, foi o filme francês mais caro de sempre à sua estreia e um fracasso devastador que acabou com a carreira do seu autor - Ophüls morreu dois anos depois sem voltar a filmar e embrenhado em guerras com os produtores, que retalharam o filme. O que vamos ver no Estoril (segunda, 9, às 12h30, no Centro de Congressos) é a versão sumptuosamente restaurada de retorno às gloriosas cores originais (foi o único filme rodado a cores por Ophüls).
Jorge Mourinha
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