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No Centro Cultural de Belém

Leilão exclusivo de fotografia hoje em estreia em Lisboa

01.06.2006 - 10:21 Por Sérgio B. Gomes

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Do que se conhece, nunca em Portugal o martelo do leiloeiro passou uma sessão inteira a decidir o valor de fotografias. A estreia acontece hoje à noite no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, naquele que é apresentado como o primeiro leilão de imagens fotográficas organizado no nosso país.

Carlos Relvas

Esta imagem de Carlos Relvas é uma das estrelas do leilão

Os 300 lotes em disputa representam imagens e suportes que vão desde os primeiros anos da história da fotografia, no séc. XIX, até ao fim dos anos 1970. Entre eles há também livros, máquinas e objectos ligados à fotografia.

Apesar de não se apresentar como um "leilão de autor", saltam à vista alguns nomes: Carlos Relvas e a planície ribatejana, Rocchini e as vistas de Lisboa, A. Bobone e os retratos da monarquia, Biel e os caminhos-de-ferro, Benoliel e as ruas de Lisboa, San Payo e as faces de Salazar, Alvão e as vinhas do Douro, Horácio Novaes e o sufoco do Estado Novo, Mário Cabrita Gil e os rostos da literatura.

Em relação a vendas do mesmo género nas principais capitais europeias e nos EUA, este leilão surge com pelo menos 30 anos de atraso. Até agora, em Portugal, a fotografia só tinha aparecido em leilões de forma episódica misturada com lotes de livros e antiguidades. Uma "desconsideração" que lembra a estranheza com que os organizadores das exposições industriais de meados do século XIX olhavam para a fotografia, quando não sabiam bem se a deviam considerar um mero processo químico ou um objecto estético.

A contrastar com essa aparente indiferença dos vendedores nacionais está o interesse cada vez maior de quem compra. Em Novembro do ano passado, por exemplo, nenhum dos nove lotes de fotografia de um leilão de livros em Lisboa foi retirado da praça, e um conjunto de 44 imagens de costumes africanos foi arrematado por nove vezes mais (950 euros) do que o seu valor de base (100 euros). Noutro campeonato, a 14 de Fevereiro deste ano, uma fotografia a cores de Edward Steichen foi vendida num leilão da Sotheby`s, em Nova Iorque, por perto de 2,5 milhões de euros, quando as estimativas do catálogo apontavam para um valor compreendido entre 549 e 785 mil euros.

Leilão gera expectativa

Confusões, desconsiderações e atrasos à parte, o certo é que o leilão de logo à noite gerou uma enorme expectativa junto de investigadores, coleccionadores nacionais e estrangeiros e algumas instituições ligadas à fotografia. Os organizadores Bernardo Trindade, da Livraria Campos Trindade, e Luís Trindade, da empresa de conservação e restauro Potássio 4, afirmam ter recebido pedidos de catálogos do Brasil, EUA, França, Espanha, Inglaterra e Luxemburgo.

Quem garante também que houve um crescente burburinho à volta desta venda é o sociólogo António Barreto, alguém que percebeu há mais de 30 anos que valia a pena comprar, estudar e preservar fotografia portuguesa. Barreto, autor do prefácio do catálogo, afirma-se "um pouco surpreendido" com esta resposta e estranha só agora haver um leilão de fotografia em Portugal. "Se é possível comprar tudo, desde dentes, sapatos, discos e livros, porque é que a fotografia não haveria também de ser comprada?", questiona o coleccionador que decidiu colocar à venda cinco obras do seu vasto espólio.

A ideia dos primos Trindade começou a ganhar corpo quando se aperceberam de que cerca de 70 por cento dos clientes da Potássio 4 procuravam material relacionado com fotografia. O contacto próximo com os coleccionadores mais dedicados, na livraria e na loja, fez o resto. Depois de um lento processo de selecção, ficaram os espólios privados de dez especialistas, que, em conjunto com os leiloeiros, decidiram os preços a dar a cada lote, ainda muito longe dos valores milionários praticados no estrangeiro. "É a primeira vez que se organiza um leilão onde se descreve a fotografia com bases científicas definindo a técnica utilizada e as dimensões da imagem. Apostámos neste aspecto para que as pessoas saibam o que estão a comprar e possam aprender com o catálogo", diz Bernardo Trindade.

Para além de António Barreto, a comissão científica do leilão contou com a colaboração do historiador António Valdemar e do conservador e fotógrafo Luís Pavão, que identificou os processos fotográficos.

Emília Tavares, conservadora de fotografia do Museu do Chiado, lamenta que a maior parte dos lotes não esteja datada, mas reconhece nesta iniciativa "um sintoma de revitalização do valor estético e documental da fotografia" em Portugal. "É muito interessante que [o leilão] parta de alguém que está ligado à preservação da fotografia, um sintoma de que há uma preocupação transversal que vai do curioso ao coleccionador, do investigador ao conservador", afirma.

Para além de servir como alerta para o valor patrimonial da fotografia, o leilão de hoje dá início a um referencial de preços para um mercado que até aqui dependia em grande medida dos humores e das simpatias de quem vendia. Por outro lado, Emília Tavares fala de "um aspecto didáctico" que permite perceber que "a fotografia tem uma história e que as imagens fotográficas nem sempre foram como as conhecemos hoje".

António Barreto, por seu lado, sublinha que, a curto prazo, haverá "um efeito salvífico, na protecção e na preservação da fotografia antiga". Os coleccionadores que o sociólogo "conhecia pelos nomes" há três décadas, "quando não havia ninguém a bordo", começaram a multiplicar-se. Durante anos andaram na peugada uns dos outros, sem nunca se conhecerem. Também hoje, pela primeira vez, se vão reunir no mesmo lugar.

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