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Cemitério dos Olivais, em Lisboa

Funeral de Margarida de Abreu realiza-se no domingo

29.09.2006 - 16:17 Por Lusa

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O corpo da professora Margarida de Abreu, falecida hoje aos 90 anos de idade, vai ficar em câmara ardente na Basílica da Estrela, em Lisboa, a partir das 14h00 de amanhã. O funeral realiza-se no domingo, às 10h00, no Cemitério dos Olivais, onde o corpo será cremado.

Tiago Petinga/Lusa

Em 1946, Margarida de Abreu publicou o seu Manifesto em defesa da dança

A directora da Companhia Nacional de Bailado considera que sem Margarida de Abreu, "o bailado como existe hoje nunca teria existido e que todos os profissionais da dança lhe devem muito". Ana Pereira Caldas vê em Margarida Abreu "uma figura incontornável da dança em Portugal e que, no seu tempo, teve uma visão de futuro".

A Companhia Nacional de Bailado prestará homenagem a Margarida Abreu na programação de Outubro.

Vasco Wellenkamp, director da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, disse que a professora "ensinou a amar a dança". "Nas aulas dela, mais do que a técnica, ensinava a sentir a dança, o movimento", referiu o coreógrafo, aluno de Margarida Abreu na década de 1960, ainda no Círculo de Iniciação Coreográfica.

Uma mulher pioneira do ensino da dança

Apaixonada pela dança, à qual dedicou mais de 60 anos da sua vida, Margarida Hoffmann de Barros Abreu Salomão de Oliveira nasceu a 26 de Novembro de 1915, em Lisboa, e recebeu uma profunda educação humanística e artística e uma sólida formação musical.

Margarida de Abreu teve o seu primeiro contacto com a dança aos 12 anos através da ginástica rítmica dalcrozeana com as professoras Cécil Kitkat e Sosso Ducas-Schau.

Aos 17 anos partiu para Genebra, Suíça, para integrar o Institut Jacques Dalcroze, onde se formou em 1937, e prosseguiu os estudos na Alemanha, no Deutsche Tanz Schule, em Berlim, seguindo depois para o Hellerau Laxemburg Schule, em Viena.

Devido a uma ciática numa perna e nas costas, Margarida de Abreu deixou de dançar e foi para Inglaterra, onde fez estágios de ensino, em 1947 e 1948, na Sadler's Wells, em Londres (hoje Royal Ballet School).

Margarida de Abreu regressou a Portugal com o início da II Guerra Mundial e percebeu que não havia nenhuma tradição no país e que a dança existente era a das revistas do Parque Mayer e das óperas do Coliseu.

Em 1939, a convite do director do Conservatório Nacional, Ivo Cruz, tornou-se professora de dança do curso de teatro do Conservatório (de 1939 a 1986), onde teve como alunos João d'Ávila, Catarina Avelar, Alina Vaz, Mariana Rey-Monteiro, entre outros.

Nas suas primeiras experiências coreográficas, Margarida de Abreu colocou como intérpretes um grupo de alunas do Conservatório, que pela primeira vez se apresentaram fora do contexto escolar. Desta experiência, em 1944, Margarida de Abreu criou o Círculo de Iniciação Coreográfica (CIC), que traçou um caminho paralelo ao grupo dos Bailados Verde Gaio, dirigido por António Ferro e orientado por Francis Graça, cujo estilo era mais o folclore.

O CIC permitiu a Margarida de Abreu iniciar uma campanha para a divulgação do bailado clássico.

Em 1946, Margarida de Abreu publicou o seu "manifesto" em defesa da dança como forma de arte e do seu ensino.

O CIC acabaria por fechar em 1960. Nesse mesmo ano, Margarida de Abreu e o seu ex-aluno Fernando Lima são convidados para remodelar os Bailados Verde Gaio, iniciando uma luta contra o que considerava ser a estilização do folclore.

Paralelamente integrou a recém-formada Escola de Bailado de São Carlos como coreógrafa, um projecto da Alta Cultura que durou de 1964 a 1972.

Margarida de Abreu esteve 18 anos à frente dos Bailados Verde Gaio, onde introduziu a técnica classicista e expressionista, guiada pela dança interpretativa de Mary Wickman e de Isadora Duncan.

No entanto, Margarida de Abreu não parou, continuou a leccionar no conservatório - onde esteve 50 anos - e no seu estúdio particular em Lisboa.

Após ter deixado o ensino oficial, Margarida de Abreu criou o Grupo Studium, com o qual apresentou algumas novas peças ou recriações de obras do passado com antigos e actuais alunos.

Do seu extenso trabalho coreográfico fazem parte, entre outros, "Bailado Setencista" (1943), "Pastoral" (1943), "O Pássaro de Fogo" (1946), "Serenata" (1946), "Dança do Vento" (1949), "Nocturnos" (1958) e A menina dos olhos verdes" (1971).

No cinema, Margarida de Abreu foi a coreógrafa do filme "Amor de Perdição", "Francisca" e "Os Canibais", de Manoel de Oliveira.

Foi agraciada com a Ordem de Instrução Pública (1979), recebeu o Troféu da Casa da Imprensa nesse mesmo ano e, em 1980, numa homenagem no Teatro Nacional de São Carlos, recebeu a Medalha Almeida Garrett.

Em 1988 foi agraciada com o Troféu do Jornal "Sete" e em 1990 com a Medalha de Mérito Artístico do Conselho Brasileiro de Dança.

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