Artista quer expor vídeos de abortos a que se submeteu voluntariamente
22.04.2008 - 17:38 Por Romana Borja-Santos
Fazer inseminações artificiais consecutivas, provocar abortos e filmar tudo para depois expor. Arte ou loucura? Esta é a pergunta que tem estado a ser debatida desde que a aluna do mestrado de Belas Artes da universidade norte-americana de Yale, Aliza Shvarts, anunciou que queria inaugurar hoje uma exposição com imagens do que fez durante nove meses.
A notícia foi avançada na passada quinta-feira pelo jornal “Yale Daily News”, segundo o qual Aliza Shvarts se submeteu, sem intervenção médica, a inseminações artificiais ao longo de nove meses, provocando no fim do ciclo menstrual abortos com recurso a medicação. De acordo com a aluna, o objectivo do projecto não é chocar as pessoas, mas sim promover a conversa e o debate em torno da relação entre a arte e o corpo humano – pelo que quer expor vídeos do processo e restos de sangue “trabalhados” que conservou.
“Acredito verdadeiramente que a arte pode ser um meio de transmitir política e ideologia e não apenas uma comodidade. Penso que criei um projecto que reacende o que a arte deveria ser”, explicou Aliza.
Uma opinião bem diferente tem a presidente do Comité Nacional do Direito à Vida dos Estados Unidos, Wanda Franza, que não tem dúvidas de que a estudante sofre de “graves distúrbios mentais”, comparando-a mesmo aos nazis, que durante o Holocausto desenvolveram diversas experiências.
Algumas horas depois de lançada a polémica, um porta-voz da Universidade de Yale veio a público desmentir a notícia, dizendo que a aluna simulou os abortos e que a performance consiste precisamente na invenção de uma história. De acordo com a mesma fonte, Aliza garantiu a vários docentes que criou os acontecimentos para trazer o corpo da mulher para a arte com uma nova perspectiva.
Aliza não pode garantir que estava grávida
Mas a versão de Aliza Shvarts mantém-se. A criadora do projecto reafirma que realizou várias inseminações artificiais e que ao 28º dia do seu ciclo menstrual induzia sempre o aborto, através de diversos medicamentos, apesar de não poder garantir se estava ou não grávida. “Ao longo do ano passado injectei sozinha esperma na minha vagina com a ajuda de uma seringa. Tive o cuidado de o fazer menos de 30 minutos depois de o recolher, para assegurar a possibilidade de fecundação. Contudo, como ingeria os medicamentos 28 dias depois do acto não posso garantir se havia ou não um óvulo fertilizado”, precisa a estudante.
Aliza sublinha, também, que os dadores de sémen não foram pagos para participar no projecto e que lhes exigiu exames periódicos para se certificar que não tinham nenhuma doença sexualmente transmissível. No entanto, não adianta o número de participantes, e garante que não está preocupada com os efeitos das intervenções do seu corpo, pois usou sempre medicamentos legais e feitos à base de ervas.
Caso insista que as imagens e o sangue que quer mostrar são reais, a universidade que frequente não a deixará integrar a exposição que deveria ser hoje inaugurada. “Caso não apresente um documento em que diga de forma clara que a sua instalação é um trabalho de ficção a performance não se realizará”, informou Peter Salovey, docente em Yale, que defende que o tutor do projecto não o deveria ter deixado ir tão longe, pelo que também sofrerá consequências.
Mesmo que não consiga exibir o seu trabalho junto do dos colegas, Aliza Shvarts já conseguiu em parte o seu objectivo: “Pôr a arte ao serviço da ideologia e acender o debate”.
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