A pianista que desgostou de Portugal
03.07.2009 - 16:35 Por Sérgio C. Andrade
Tudo leva a crer que a causa próxima do estado de espírito negativo, e mesmo de revolta, que levou a pianista Maria João Pires a anunciar como definitiva a sua renúncia à nacionalidade portuguesa tenha sido o recente episódio do arresto de bens móveis da Escola da Mata, no seu Centro de Artes de Belgais, em Castelo Branco.
Há cerca de duas semanas, aquele estabelecimento do primeiro ciclo, integrado na Associação do Centro de Estudos para as Artes de Belgais e gerido pela filha da pianista, Joana Pires, viu-se despojado de mobiliário, três pianos e outros instrumentos musicais, além de livros e cadernos, normalmente usados pelas 40 crianças que o frequentam.
O arresto tinha sido ordenado pelo Tribunal de Trabalho de Castelo Branco, alegadamente na sequência de um processo interposto por ex-funcionários que tinham sido despedidos da instituição e que discordavam das indemnizações que lhes foram atribuídas.
A escola funcionava com o apoio do Ministério da Educação, estabelecido num acordo em 2000, um ano após a fundação do Centro. Mas o ministério decidiu, na sequência desse arresto, cancelar o seu apoio, que este ano orçaria os 170 mil euros. Reagindo à situação, Joana Pires disse-se disposta a contestar a legalidade do confisco dos bens e a manter a escola a funcionar até final deste ano lectivo. Mas o futuro ficou claramente em risco.
Esta não é, contudo, a primeira vez que Maria João Pires manifesta um mal-estar para com o seu país. Seja enquanto pianista, seja, principalmente, como promotora da aventura de criar na sua granja de Belgais a “utopia” de uma escola de artes, em que às crianças do 1º Ciclo eram ministrados ensinamentos de música, de outras artes e também de cidadania. O projecto apontava também para a criação de um Coro de Belgais. E em paralelo com as crianças, ao Centro acorriam artistas de todo o mundo, para fazerem residências, dirigirem workshops e participarem em actividades diversas.
Ciclicamente, a realidade não correspondia a este sonho de Maria João Pires, e, subitamente, em Março de 2006, a pianista viu-se obrigada a submeter-se a uma operação ao coração para a colocação de um “bypass”, intervenção que realizou em Espanha, com sucesso. Alguns meses depois, em Julho desse ano, ainda antes de ter regressado aos palcos, Maria João Pires surpreendia de novo a opinião pública portuguesa ao anunciar, numa entrevista à Antena 2, a decisão de ir viver para o Brasil, fugindo do “enorme sofrimento” que lhe estavam a causar as dificuldades por que passava o projecto de Belgais.
“Vim para o Brasil para me salvar dos malefícios que Portugal me estava a fazer. Sofri fisicamente todos os anos que dediquei àquele projecto e não consegui mais do que um início”, acrescentava a artista, tendo decidido então pedir a dupla nacionalidade.
A saída de Maria João Pires de Portugal foi também vista, na altura, como o abandono do projecto de Belgais. Mas a pianista esclareceria logo a seguir que iria manter a sua colaboração com o Centro de Artes, agora sob gestão da sua filha. Numa “carta aberta” feita chegar à imprensa, explicou: “Não tenciono abandonar aquilo que eu própria criei. Não temos patrocinadores privados, nem provavelmente algum dia teremos, num país como Portugal que se comporta sem algum interesse pelas gerações futuras nem por projectos que incentivem valores morais, solidariedade, educação, respeito pelo ambiente, amizade e camaradagem”. Mais adiante, dizia: “Comprei uma casa na Bahia onde tenho ‘descansado de Portugal’, porque aqui, ao contrário daí, me é permitido descansar”. E finalizava dizendo que podia continuar a colaborar no projecto de Belgais, mesmo “sem gostar de Portugal”.
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