Darwin e Einstein usavam as cartas como o correio electrónico dos nossos dias
27.10.2005 - 10:45 Por Patrícia Coelho Moreira, PÚBLICO
Charles Darwin e Albert Einsten não tinham computador nem endereço de e-mail, mas trocavam muita correspondência. Os dois cientistas recebiam e escreviam cartas de âmbito pessoal e profissional a um ritmo elevado e administravam o seu correio da mesma forma que o homem contemporâneo faz a gestão das suas mensagens electrónicas. A conclusão é do aluno de doutoramento da Universidade de Aveiro João Gama Oliveira e do norte-americano Albert László Barabási, que assinam hoje um artigo sobre o tema na revista "Nature".
Darwin enviou mais cartas do que recebeu, Einstein recebeu mais do que redigiu, e os dois trocaram muita correspondência, principalmente a partir do momento em que se tornaram famosos. Só o Nobel da Física escreveu mais de 14.500 missivas e recebeu mais de 16.200, enquanto o naturalista britânico que assinou a doutrina evolucionista das espécies enviou quase 7600, contra as 6500 que lhe foram remetidas. Nos últimos 30 anos de vida, Einstein escrevia em média uma carta por dia, e Darwin 0,6.
"Analisei as cartas do ponto de vista quantitativo, em termos dos tempos de resposta", introduz João Gama Oliveira, especialista numa área da ciência que estuda os padrões matemáticos das mais variadas redes - desde as ligações entre neurónios até à forma como os vírus se espalham pela Internet.
"A correspondência escrita de então e a correspondência electrónica de hoje obedecem ao mesmo tipo de lei, a lei em potência", revela. "A maior parte dos tempos de resposta são de curto intervalo, da ordem dos dez dias, mas em alguns casos verifica-se uma demora de meses ou mesmo anos", explica. "Não existe um período de tempo típico de resposta."
"Construímos um modelo para identificar o mecanismo que está na base do que é observado. As cartas que aguardam resposta formam uma fila de espera, em que cada uma é respondida de acordo com o grau de prioridade que lhe foi atribuído", explica.
"Darwin e Einstein eram pessoas diferentes e viveram em épocas diferentes, mas em termos da atitude em relação à correspondência vê-se que os padrões são praticamente coincidentes", frisa. Os dois cientistas "inserem-se num padrão de comportamento humano em que nem os famosos são excepção" e "administravam a sua correspondência da mesma forma que hoje se administra a electrónica."
No caso de Charles Darwin, o volume de correspondência aumentou em 1859, quando publicou o livro A Origem das Espécies, onde expõe por escrito a teoria da evolução através da selecção natural. Quanto a Albert Einstein, a troca de cartas é maior a partir de 1905, quando inicia a publicação dos seus mais importantes trabalhos, tornando-se ainda mais intensa em 1921, quando foi distinguido com o Prémio Nobel.
João Gama Oliveira conta ainda que os dois trocavam correspondência a nível internacional. "Naquela época, a correspondência era muito importante, representava o principal meio para troca de resultados e ideias científicas", lembra.
Einstein, por exemplo, também respondia a missivas que lhe eram endereçadas por crianças. Só no dia em que completou 70 anos de idade o físico alemão recebeu 120 cartas. Darwin, por seu turno, escreveu 12 cartas no dia de Ano Novo, em 1874.
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